quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CINQUENTA POEMAS TIRADOS AO AMOR DOS OUTROS: TENTATIVA NÚMERO UM:


amor é fogo que arde sem se ver, digo-o pela boca que já não te beija, que consente o silêncio e tira do coração xistoso uma combustão lenta, deixando durar o pouco que já não se vive, digo-o no redemoinho atrasado das mãos, pondo fósforos apagados onde antes havia um movimento que te percorria, amor é fogo que arde sem se ver, porque já não me escutas, se do alto do inverno, me ponho à tua frente, como uma casa aberta, onde a lareira explica a função da poesia.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

com sigmar polke e a bruma atlântica



a noite enterrando-se no fundo da cama do outono, a bruma desse silêncio escondendo a pouca alegria que restou do verão, os frutos mais raros, a água crescendo, as mãos perdendo o sentido da poesia, no entanto, uma escotilha por abrir, a possibilidade de ver de novo o dia, um cântico enumerando as maravilhas do mundo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

a solidão acompanhada


a solidão começa quando acabamos de comer a sopa, antes ainda dávamos as mãos sobresselentes, debaixo da mesa, agora as mãos estão ocupadas a abrir janelas, a ver o que os outros acabaram de comer, no outro lado do mundo, que nem importa se é atrás de nós. a solidão é estarmos acompanhados, cada um na sua desatenção preferida, a esquecer a arte de convencer o outro, que somos únicos e temos o poder de salvar um minuto, o tempo que podia ser eterno, se a palavra perfeita dissesse o que era preciso, que vale a pena erguer os olhos e espreitar por cima do esquecimento, o papel de parede, o candeeiro, a teia de aranha inofensiva, a minha ruga recente. a solidão é eu deixar de me importar contigo, e esperar que o percebas, ao meu lado, lendo o poema que publiquei agora mesmo, às escondidas, para não dizeres que te ignoro, também, enquanto esperas pelo prato principal.