quinta-feira, 26 de junho de 2014

ADC:aec / Don't Look Down





a cidade fica plana quando chega a noite, voamos quando pomos os braços no ar, reinamos sobre as sombras, as palavras soltas dos jornais, as montras que nunca deixam de vender. contamos as pedras que faltam na calçada, choramos do espaço que devia ser verde e pairamos no miradouro, a contar as vezes que a água enche o estuário. voamos quando pomos a boca a falar o que ia atrasado no nosso coração, e a cidade cada vez mais plana, tão plana que escorrega para dentro dos nossos bolsos e nós a crescer com a música que passa pelos nossos olhos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ADC:aec / Someone




o amor é uma palavra, apenas, a encher o vazio das garrafas, se elas vão com uma mensagem de esperança, na deriva de um endereço volátil.


ADC:aec / When a Man Cries




vês como parti o meu brinquedo preferido, como não adiantou esperar a tarde toda pelo comboio, como o bolo se acabou sem ninguém me avisar? vês pela minha cabeça afundada no enorme livro do silêncio, pela forma como desapareço mesmo à tua frente, pelo pó acumulado na mesinha de cabeceira? vês como caí pelas escadas e os meus pedaços a corar debaixo dos móveis, como tudo é um navio calado à espera de naufragar?

ADC:aec / Assume The Perpendicular





decidi crescer com a minha ideia fabulosa, criar-me como uma árvore, saltar à frente quarenta anos e ser alto e respeitado, com um jardim à minha volta a convidar os cães e os almoços de verão. podia ser uma torre em bolonha, uma montanha nos ombros da cordilheira, um cometa a sair da terra, mas como abrigar, depois, o pássaro feliz?


ADC:aec / Bath






o som que o mar faz quando chega a casa é igual ao teu nome, quando pronunciado, de dentro para fora.

terça-feira, 24 de junho de 2014

ADC:aec / If




se fores o caminho eu serei a vereda que te ladeia. se fores a noite eu serei o candeeiro que te vela, se fores o dia, ainda assim, continuarei aceso, não vá o verão fechar-se, de repente. se fores uma árvore, eu serei a chilreada feliz, a sombra que arredonda a suculenta bondade da tarde. se fores deus, eu serei o altar, a rosácea e a cruzada pacífica que te toma o lugar no paraíso. se fores um cavalo, eu sei que arranjarei forma de te pôr asas e contrariar a fé dos incrédulos e se fores um cão, uma libélula, uma folha de hera perdida, não importa a língua com que nos desentendemos, eu serei apenas o poema que te espera.





segunda-feira, 23 de junho de 2014

ADC:aec / In Pursuit Of Happiness





ponho-me à janela, com os braços tão longos que passaram a perna dos gerânios, a ver se chegas, com a fanfarra do verão a pôr festa à tua frente e atrás de ti apenas a parte do bilhete que diz que só pagaste a vinda. eu digo precisamente uma coisa e faço outra, fecho-me no quarto, sem ninguém, a olhar para a parte de mim que acontece, neste poema.