quarta-feira, 25 de junho de 2014

ADC:aec / Someone




o amor é uma palavra, apenas, a encher o vazio das garrafas, se elas vão com uma mensagem de esperança, na deriva de um endereço volátil.


ADC:aec / When a Man Cries




vês como parti o meu brinquedo preferido, como não adiantou esperar a tarde toda pelo comboio, como o bolo se acabou sem ninguém me avisar? vês pela minha cabeça afundada no enorme livro do silêncio, pela forma como desapareço mesmo à tua frente, pelo pó acumulado na mesinha de cabeceira? vês como caí pelas escadas e os meus pedaços a corar debaixo dos móveis, como tudo é um navio calado à espera de naufragar?

ADC:aec / Assume The Perpendicular





decidi crescer com a minha ideia fabulosa, criar-me como uma árvore, saltar à frente quarenta anos e ser alto e respeitado, com um jardim à minha volta a convidar os cães e os almoços de verão. podia ser uma torre em bolonha, uma montanha nos ombros da cordilheira, um cometa a sair da terra, mas como abrigar, depois, o pássaro feliz?


ADC:aec / Bath






o som que o mar faz quando chega a casa é igual ao teu nome, quando pronunciado, de dentro para fora.

terça-feira, 24 de junho de 2014

ADC:aec / If




se fores o caminho eu serei a vereda que te ladeia. se fores a noite eu serei o candeeiro que te vela, se fores o dia, ainda assim, continuarei aceso, não vá o verão fechar-se, de repente. se fores uma árvore, eu serei a chilreada feliz, a sombra que arredonda a suculenta bondade da tarde. se fores deus, eu serei o altar, a rosácea e a cruzada pacífica que te toma o lugar no paraíso. se fores um cavalo, eu sei que arranjarei forma de te pôr asas e contrariar a fé dos incrédulos e se fores um cão, uma libélula, uma folha de hera perdida, não importa a língua com que nos desentendemos, eu serei apenas o poema que te espera.





segunda-feira, 23 de junho de 2014

ADC:aec / In Pursuit Of Happiness





ponho-me à janela, com os braços tão longos que passaram a perna dos gerânios, a ver se chegas, com a fanfarra do verão a pôr festa à tua frente e atrás de ti apenas a parte do bilhete que diz que só pagaste a vinda. eu digo precisamente uma coisa e faço outra, fecho-me no quarto, sem ninguém, a olhar para a parte de mim que acontece, neste poema.

domingo, 22 de junho de 2014

ADC:aec / The Booklovers




herberto hélder diz a morte sem mestre, eça de queirós não acaba o romance, fernando pessoa diz em frente ao espelho. gil vicente quer o purgatório de volta, camões quer regressar ao oriente, bocage quer morrer dentro da garrafa. eugénio de andrade sabe de cor o nome das oliveiras, saramago sabe pôr glicínias na ilha árida, josé luís peixoto sabe dar a volta ao mundo. florbela espanca quer morrer antes de nascer, antero de quental quer tirar a pedra da cabeça, camilo pessanha quer contar a água do mundo. e eu quero estar com eles, quando tiverem sede, quando lhes doer as costas, quando lhes faltar o papel, quando o navio naufragar, quando a sorte mudar, quando o tempo passar depressa, quando a noite lhes fechar os olhos, quando embrulharem o poema inédito, debaixo da almofada que há-de queimar, com o peso do sonho.