eu sei que não era a tua vez de entrar na minha vida, eu sei que não era ainda tempo de voares, de vires acompanhada de estrelas, de acordares os terrores do fim do mundo. eu sei que não eras tu quem eu esperava, se demorasse na estação, sem horário nem bilhete. eu sei que o teu nome era apenas uma flor que nasce velozmente no campo da primavera, que o teu choro era um avesso imprevisto, uma porta aberta a dar para o mar reconhecido, sem embarcação nem bússola. eu sei que no meu colo não havia espaço para ti, mas talvez seja por isso que o meu coração cresceu tanto, ao longo desta vida estranha, ocupando o universo desconhecido, para te servir de berço, agora.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
ADC:aec / Gin Soaked Boy
eu sou a rolha quebrada, a garrafa com o vinho a estragar-se. eu sou a metade da distância, com o sol sempre do outro lado. eu sou o teu laço, quando saltas nua para a água. eu sou o ruído esperado, no oblíquo risco sobre a música. eu sou a escuridão de dentro dos armários, quando ainda falta muito para mudar de estação. eu sou a tristeza a preto e branco, num filme sobre a ocupação do mundo pelas rosas. eu sou o credo adiado, se a vida estiver para acabar. eu sou o da ninhada inesperada, o que vai perder-se por ser fêmea. eu sou o poema que ninguém percebe, quando a gaveta se fecha, com a chave lá dentro, e o escombro da casa regressa ao plano original. eu sou, finalmente, a alegria comum, o corpo acordado para a filosofia elementar da respiração, se me falta tudo o resto.
ADC:aec / The Certainty of Chance
se amares tanto uma coisa, não podes copiá-la até teres a mesma caligrafia, o mesmo andar, o mesmo clima? se amares tanto uma coisa, é pecado andar com ela na cabeça, como diadema extravagante? se amares tanto uma coisa, é possível tornar-se teu o que foi feito para tapar os buracos do mundo? se amares tanto uma coisa, podes dizer que é tua, só porque sabes de cor o nome, a palavra, o momento exacto em que o oboé explica a certeza de um acaso, daqueles que mudam a sorte que estava traçada?
quarta-feira, 18 de junho de 2014
ADC:aec / I Like
gosto da tua sombra quando estás de costas, do teu cabelo quando o cortas e fica a desencaminhar o chão da tristeza, da tua boca quando acertas a vogal de uma rima imprevista. gosto dos poemas que passas à frente, dos livros que não tiras do saco, do pó que deixas acumular nas músicas que já não giram, do canto do teu quarto onde pairam esquecidos os teus dedais. gosto dos sinais de trânsito que ignoras, quando vais apressada, das árvores que deixas de cumprimentar, das horas que passas a dormir, se te apetece esquecer a manhã. gosto de quanto pões no lixo, as ideias sem alicerce, as cores inanimadas, as roupas encolhidas e mesmo as cortinas mais velhas do teu sótão, mesmo quando elas já só demoram a morrer, do sol que lhes deu, se o verão estava por fora e os teus sonhos por dentro.
terça-feira, 17 de junho de 2014
ADC:aec / Tonight we fly
quantas vezes quiseste tomar à letra uma canção, fazê-la crescer na tua pele, como uma chuva que levasse para longe as coisas tristes, uma liga que apertasse a ferida e prometesse uma tatuagem no lugar de uma cicatriz? quantas vezes foste o refrão que atravessa a noite e voa ferozmente atrás da manhã, cantando o haver beleza, mesmo na escuridão do silêncio?
domingo, 15 de junho de 2014
ADC:aec / National Express
há-de haver uma ponte romana ainda de pé, uma via imensa que te leve para longe daqui, um aqueduto que conduza a tua última alegria, gota a gota, para um lugar onde a loucura seja admitida, pelo menos uma vez por dia. há-de haver, vais ver, uma manhã que seja um sonho de vincent van gogh, posto numa jarra fresca como os instantes que queremos sempre frescos, mas aos quais vamos tirando as inevitáveis pétalas que descaem, como a preparar um espírito para a sua eternidade.
ADC:aec / Lucy
no campo, atrasam-me as horas vastas, a aldeia que me deixa ser a mais alta hera, seguindo a vastidão da tua luz, e os animais que só hão-de morrer quando for preciso dar de comer ao inverno, e uma saúde que colhe papoilas e com elas faz um poema no teu peito, e a certeza de haver um céu limpo, para se perceber, na transparência do azul, a complicação das constelações.
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