terça-feira, 17 de junho de 2014

ADC:aec / Tonight we fly




quantas vezes quiseste tomar à letra uma canção, fazê-la crescer na tua pele, como uma chuva que levasse para longe as coisas tristes, uma liga que apertasse a ferida e prometesse uma tatuagem no lugar de uma cicatriz? quantas vezes foste o refrão que atravessa a noite e voa ferozmente atrás da manhã, cantando o haver beleza, mesmo na escuridão do silêncio?


domingo, 15 de junho de 2014

ADC:aec / National Express



há-de haver uma ponte romana ainda de pé, uma via imensa que te leve para longe daqui, um aqueduto que conduza a tua última alegria, gota a gota, para um lugar onde a loucura seja admitida, pelo menos uma vez por dia. há-de haver, vais ver, uma manhã que seja um sonho de vincent van gogh, posto numa jarra fresca como os instantes que queremos sempre frescos, mas aos quais vamos tirando as inevitáveis pétalas que descaem, como a preparar um espírito para a sua eternidade.

ADC:aec / Lucy




no campo, atrasam-me as horas vastas, a aldeia que me deixa ser a mais alta hera, seguindo a vastidão da tua luz, e os animais que só hão-de morrer quando for preciso dar de comer ao inverno, e uma saúde que colhe papoilas e com elas faz um poema no teu peito, e a certeza de haver um céu limpo, para se perceber, na transparência do azul, a complicação das constelações.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

ADC:arc / Summerhouse




lembras-te do verão que nunca acabou, da casa erguida para durar uma estação, suportada pelas palavras dóceis, os poemas perfeitos, a chuva de lado, a acompanhar a noite, a bater contra a vedação e a vedação a deixar de fora os instrumentos desafinados, os candeeiros partidos, as roupas pesadas? lembras-te do verão que nunca acabou, da tua idade suspensa, da infância recuperada, quando entrava pela noite dentro com os despojos da tarde, os joelhos soltos, a cor da fruta nas blusas? lembras-te do verão que nunca acabou, do bilhete onde te dava indicações precisas, um mapa onde marcava a colina, a fonte, o estendal, os girassóis a crescer? lembras-te do verão que nunca acabou, do tempo que demoraste a chegar, da minha paciência intacta, da minha sombra confundindo-se no alpendre, com as buganvílias e os gatos antigos? lembras-te do verão que nunca acabou, porque eu continuo à tua espera?

terça-feira, 10 de junho de 2014

ADC:aec / Sticks & Stones




eu e tu, como a primeira e a última sombra, eu e tu, fermentando como uma fabulosa vindima, eu e tu, tempo consertado, sem ponteiros nem luz do sol, a dar conta das pequenas coisas que o coração colecciona, eu e tu, a contornar as pedras e os espinhos, a afastar o silêncio e a saltar as noites.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

ADC:aec / Perfect Lovesong



se me deres o teu amor, eu dou-te o poema perfeito, roubado do melhor poeta, tirado da coroa do imperador, do giradiscos maravilhoso que toca há mil anos. se me deres o teu amor, eu juro que mudo este mundo e ponho de volta tudo o que tirei, devolvo a vida aos animais extintos e estampo as plantas que entretanto secaram, num lenço que dê a volta às coisas tristes, uma coisa que suba, que suba, que suba, e lá do alto nos veja aos dois, com o poema perfeito a dizer onde regressar, se faltar, de repente, a música que lhe põe o ar quente no coração.


ADC:aec / Songs Of Love





o amor entra na poesia como a lua chega ao movimento do mar, obedece a regras simples, põe uma solenidade feliz nas palavras que se acendem, coroa de música o pensamento do coração, caminha de olhos fechados, chega onde quer.