sexta-feira, 30 de maio de 2014

sair

de vez em quando podia morrer, se houvesse lugar para onde ir e porta para escancarar no regresso.

terça-feira, 29 de abril de 2014

sem título




se vier a tristeza, vou encarcerar-me na fissura que o tempo rasgou nas pedras, como um escaravelho ou outro insecto brilhante.

(em construção)...



quarta-feira, 16 de abril de 2014

parar, de vez em quando:



parar, de vez em quando, para deixar os nossos olhos subir ao telhado das coisas e espreitar o milagre da paciência.




domingo, 13 de abril de 2014

uma coisa por dizer



uma coisa por dizer, que fica sempre, como a certeza de a morte de um ser o destino de todos, se não nos lembramos que devemos ser eternos, nem que por uma noite, se essa noite for aquela em que o amor acontece. uma coisa por dizer, que seja para ti, tirada de um poema que deixe escapar as palavras, se elas não fazem falta e no lugar delas permanece a música.


quinta-feira, 10 de abril de 2014


vou dormir, quer dizer, desligar esta vela intermitente que me desassossega o coração.

abril, outra vez




a árvore cresce com o tecto inclinado da chuva, espreita os pássaros vindouros, poemas de luz, para a fotossíntese delicada do coração em flor.


livro de salmos e queixas suplementares



não temos de ir a arles para saber a cor do verão, temos a carta do nosso primeiro amor, como girassóis na água da poesia, aguentando o tempo que passa e não se repete.




segunda-feira, 7 de abril de 2014

outra:




vou estar atento, fingir que não tenho de respirar: subitamente chegas, à frente da andorinha feliz.




livro de salmos e queixas suplementares



para te ver todos os dias tenho de sobrepor o dia perfeito, andar com a cabeça tapada, iludida nos farrapos da seda, com que me cego, para a sombria solidão da manhã.

domingo, 6 de abril de 2014

livro de salmos e queixas suplementares


construí esta arca monumental, guardando um par de cada verso, um par de cada silêncio, um par de cada promessa. quando o dilúvio parar, essa ausência que me inunda de tristeza, hei-de voltar a falar, como um poeta.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

# primeiro parágrafo de um conto a haver sobre o sofrimento



O sofrimento limita-te a luz, ficas pequenina à espera que tudo passe, mesmo a arca onde foste guardando as sementes das romãs e os lenços bordados, segredos para revelar um dia. Mas essa luz basta para que encontres um caminho para algum lado, onde dizem que o arco-íris guarda um pote com geleia. E tudo fica mais doce, outra vez.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

# primeiro parágrafo de um conto de natal a haver



Então tu pedes para os outros e o Natal sai veloz das tuas mãos, a escorregar-se de doces em cada um dos teus amigos, incluídos os livros de cabeceira, as árvores que vão dando cor ao teu inverno, as nuvens indecisas, como renas sem pai natal, livres, portanto. Então tu decides que o amor é uma conta simples de fazer: subtrais a tua sombra e o mundo todo acorda, feliz. Somas, assim, todos os desejos dos outros. Um outro que baste, como tu, retribui-te a maravilha. E tudo parece melhor.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ensaio sobre o mau tempo (sem canal)



Olha, a ilha hoje acordou do lado de dentro das nuvens. Deita fora o excesso da água que pesa no coração do céu. Nem sempre é assim, que o azul é uma cor que sobrevive a todas as estações. Mas hoje não. O mar lava-se nos cabelos da terra, está turvo como, afinal, toda a distância que carrega às costas. E nós, os viventes e os sobreviventes, ficamos apenas à espera, que a ilha nos dê um sinal, uma aberta, uma página seca, para começarmos o dia.

Olha, amanhã a ilha está perdoada. Afinal, é linda mesmo quando te fecha em casa e te obriga a colher saudades.

domingo, 22 de setembro de 2013

almada:



uma luz que é líquida e emerge
das janelas felizes
batendo contra a promessa
do abraço da água

uma praça contínua
como rua que desce
para o coração ficar
disponível

um lugar que põe
as nuvens a navegar
de novo

e sobe sobe
até tudo ser um sonho
possível


terça-feira, 3 de setembro de 2013

memorial a mário botas




a morte é uma flor

crescendo ao contrário



subiu do coração

num mundo do avesso



o pássaro do amor

iluminando o poemário



como o sol na ilustração

de um beijo espesso



a casa partiu jovem

no meio da escuridão



a palavra prometida

no vazio da parede



é agora um homem

na rosa da solidão



uma memória ferida

baloiçando sem rede



a morte é uma flor

confirmando o coração



enquanto houver fome

e durar a tempestade



enquanto o pincel da cor

distorcer-se da ilusão



haverá luz sobre o teu nome

e vida na eternidade


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #4



Preparei uma lista das coisas que me separam de ti. São sobretudo palavras, umas oblíquas, outras transparentes, quase todas numa língua imprópria para um coração fraco.


domingo, 18 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #3



Colher pedras, arrumá-las no bolso, levá-las para casa. É exactamente o contrário de esquecer. Arranjar lastro para a memória perdurar, o peso das tardes que valeram a pena. Um dia a casa vai inclinar-se com tanta coisa, ou então o meu coração pára.

sábado, 17 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #2



A casa não me chega para o ar que preciso de inclinar para dentro da minha desarrumação. As janelas parecem seres minúsculos que cintilam alguma luz quando os eclipses se alinham, as estantes estão inclinadas, caem livros e pedras do acaso. Aprendo a falar o silêncio, arranjei um amigo. Ele diz que me vai dar a mão, como um bombeiro quando tira da água o corpo esquecido da criança.


(...)

domingo, 11 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #1



Voltei a casa para arrumar as coisas importantes. Alguns livros que escondem bilhetes de comboio, certificados de aforro do coração, desenhos de crianças que já não crescem mais. A caixa que trouxe debaixo do braço não chega para conter o pó que se levantou da memória. Vou ter de escolher bem o que vale a pena levar comigo. O milho rei do verão, preciosas cortinas sobre uma alegria afundada.

(...)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

# 5



quando sonhas uma casa a primeira coisa que constróis é a porta
por lá hão-de entrar os teus sonhos alados
de asas bem abertas
uma porta com um nome feito de promessas
um doce perfeito
decorado com aquilo que desejas encontrar quando entras em casa
quando sonhas uma casa a casa não são apenas paredes que te protegem
a casa é todo o filme que diriges
os actores que dão vida às cenas mais fabulosas
os finais felizes
sucedendo-se um após o outro
para que dentro de casa não haja tristeza
quando sonhas uma casa sabes que ela vai ali estar para toda a vida
mesmo que a vida seja longa como o crescer das árvores
mesmo que a vida seja um mistério do qual fazemos parte
porque nunca sabemos ao certo para onde vamos mas porque temos uma casa sabemos
ao menos onde estamos onde adormecemos onde amamos onde acordamos
quando sonhas uma casa é lá que guardas a tua música
com todos os instrumentos que experimentaste
mesmo aqueles que avariaram de tantas vezes que os obrigaste a darem-te asas
e quem diz música diz anéis e pulseiras
brincos e outros pendentes que apenas dão brilho ao que já é belo
e quem diz todas estas coisas sabe que tudo o que é precioso
dentro de uma casa
tem um lugar para nos compor os pequenos passos que damos à procura de sermos nós próprios
sem mais nada que às vezes basta termos onde nos aninharmos para sermos felizes
que às vezes basta sabermos que ali podemos escutar o nosso coração
desapressado de todas as coisas que nos cansam. quando sonhas uma casa e sonhas acompanhado
de mão dada de olhar extenso e passo cúmplice já não estás a sonhá-la
estás a tirá-la do papel
estás a erguê-la à tua frente fazendo sombra contra a verão
estás a senti-la como um morango na tua boca
porque é real e estás dentro dela
descansado
no teu sofá
abraçado em frente a este poema



escrito na parede dos meus amores, pedro e susana (e agora Gabriel, também)