terça-feira, 24 de dezembro de 2013

# primeiro parágrafo de um conto de natal a haver



Então tu pedes para os outros e o Natal sai veloz das tuas mãos, a escorregar-se de doces em cada um dos teus amigos, incluídos os livros de cabeceira, as árvores que vão dando cor ao teu inverno, as nuvens indecisas, como renas sem pai natal, livres, portanto. Então tu decides que o amor é uma conta simples de fazer: subtrais a tua sombra e o mundo todo acorda, feliz. Somas, assim, todos os desejos dos outros. Um outro que baste, como tu, retribui-te a maravilha. E tudo parece melhor.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ensaio sobre o mau tempo (sem canal)



Olha, a ilha hoje acordou do lado de dentro das nuvens. Deita fora o excesso da água que pesa no coração do céu. Nem sempre é assim, que o azul é uma cor que sobrevive a todas as estações. Mas hoje não. O mar lava-se nos cabelos da terra, está turvo como, afinal, toda a distância que carrega às costas. E nós, os viventes e os sobreviventes, ficamos apenas à espera, que a ilha nos dê um sinal, uma aberta, uma página seca, para começarmos o dia.

Olha, amanhã a ilha está perdoada. Afinal, é linda mesmo quando te fecha em casa e te obriga a colher saudades.

domingo, 22 de setembro de 2013

almada:



uma luz que é líquida e emerge
das janelas felizes
batendo contra a promessa
do abraço da água

uma praça contínua
como rua que desce
para o coração ficar
disponível

um lugar que põe
as nuvens a navegar
de novo

e sobe sobe
até tudo ser um sonho
possível


terça-feira, 3 de setembro de 2013

memorial a mário botas




a morte é uma flor

crescendo ao contrário



subiu do coração

num mundo do avesso



o pássaro do amor

iluminando o poemário



como o sol na ilustração

de um beijo espesso



a casa partiu jovem

no meio da escuridão



a palavra prometida

no vazio da parede



é agora um homem

na rosa da solidão



uma memória ferida

baloiçando sem rede



a morte é uma flor

confirmando o coração



enquanto houver fome

e durar a tempestade



enquanto o pincel da cor

distorcer-se da ilusão



haverá luz sobre o teu nome

e vida na eternidade


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #4



Preparei uma lista das coisas que me separam de ti. São sobretudo palavras, umas oblíquas, outras transparentes, quase todas numa língua imprópria para um coração fraco.


domingo, 18 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #3



Colher pedras, arrumá-las no bolso, levá-las para casa. É exactamente o contrário de esquecer. Arranjar lastro para a memória perdurar, o peso das tardes que valeram a pena. Um dia a casa vai inclinar-se com tanta coisa, ou então o meu coração pára.

sábado, 17 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #2



A casa não me chega para o ar que preciso de inclinar para dentro da minha desarrumação. As janelas parecem seres minúsculos que cintilam alguma luz quando os eclipses se alinham, as estantes estão inclinadas, caem livros e pedras do acaso. Aprendo a falar o silêncio, arranjei um amigo. Ele diz que me vai dar a mão, como um bombeiro quando tira da água o corpo esquecido da criança.


(...)