quarta-feira, 17 de julho de 2013

# 4





o meu primeiro amor apareceu numa tarde de primavera
descaindo sobre mim com a música reduzida do silêncio
como uma sombra que se quer sem a imperfeição da luz

havia um desenho aguando para dentro das nossas flores
árvores com a admirável indulgência de não nos cobrirem
e crianças descalças agitando as redondas gotas de chuva

havia uma porta aberta que dava para uma casa só nossa
uma casa com a cama feita e janelas atadas à sede do mar
uma casa com livros antigos escutando a nossa presença
e nós de mãos dadas à espera que a porta se consagrasse

e nós tão perfeitos que a eternidade revelou o seu encanto
e assistimos a um poema que nos adormecia tão baixinho

e nós tão perfeitos que deus desistiu de ser dar aos gatos
e a poesia a tapar o fundo do poço e nós a durar a durar

quarta-feira, 3 de julho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

# 2



atira um saco de berlindes ao ar
e logo verás que o verão
não tarda a aquecer-te as mãos

sexta-feira, 21 de junho de 2013

# 1 do verão



não importa se chove
se morre o girassol
se desbotam as blusas
no estendal

o verão chega a tua
casa

pela porta grande
da alegria


domingo, 16 de junho de 2013

interrupção involuntária da primavera




A primavera está a dias de acabar... tinha prometido um poema por cada dia de primavera, cheguei aos 56... tendo em conta que foram mais os dias de inverno que os de primavera... talvez o saldo esteja a meu favor...

Vou interromper por uns tempos a bainha, para ela respirar e, quem sabe, coser-se com outras linhas. Mas o outono vai chegar depressa, prometo! E mais forte e condensado que nunca!

Beijinhos e um obrigado especial para todos os que foram incentivando este roteiro para a primavera de 2013.

sábado, 18 de maio de 2013

# 39



às vezes a espera é insuportável, apercebemo-nos da erosão que vai acabar por levar a porta de frente, as telhas de cima, os tapetes de baixo, os sonhos de trás. às vezes a espera é insuportável, os caminhos do mundo que vão dar ao contrário do amor e os mapas que escondem, desenhados a tinta de limão e as tuas mãos, às tantas dissolvidas no teu rosto, precárias como o tempo, quando se aproxima a hora prometida.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

# 38



se não houver música, a beleza do mundo resume-se a um amontoado de poesia que bloqueia a aparição de deus.