quinta-feira, 18 de abril de 2013

# 28



um amor perfeito, em partes iguais, desaguando para o mesmo lado, crescendo à mesma hora, com a mesma ideia de paraíso.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

# 27







não me lembro de metade das coisas que vivi

parece que não fui ou que me adiei até agora



olho para as velas no bolo de aniversário

e só penso no tempo que me faz falta



o tempo que foi igualzinho àquele que na tua mão

se gasta a contar conchas na praia



podias ficar a vida toda a contar conchas

que nunca ias perceber quantas há

ou pior

que nem todas as conchas do mundo te fariam um homem rico

se a riqueza afinal vem de percebermos que não vale a pena contar nada



nem moedas nem oliveiras

nem pontes nem sapatos

nem sequer rebuçados grandes ou pequenos



quem sabe algumas nuvens

daquelas que passam depressa (e mesmo assim

nunca poderias contar a chuva

se a houvesse)



que um homem rico é aquele que ainda pode soprar velas

no dia do seu aniversário

(e no soprar velas temos a certeza

do amor ainda ser possível)



olha, não me lembro de metade das coisas que vivi

se calhar passaram precisamente por causa disso

de não as ter vivido



mas não me esqueço que fui pequeno

e que cabia no colo da minha avó e da minha mãe

e da cadela quando se desenrolava no jardim



não me esqueço que trepava às árvores

e voava com os ninhos que metia ao bolso



não me esqueço que dei importância os livros

que antes me cansavam



não me esqueço que tirei do mais fundo de mim

a ideia daquilo que tu és hoje



o meu espelho que se repete

a pensar no tempo

e a soprar comigo estas velas



sem perceber os meus três segundos de silêncio

a pensar que estou a pedir um desejo fabuloso

como um brinquedo cheio de luzes e serpentinas e música



quando os meus três segundos serviram

para este poema dizer que ia aparecer assim de repente

e que tu és afinal o meu maior desejo

# 26



a primavera disse-me que tudo é permitido. falar para dentro das pedras, escrever para dentro das nuvens, sussurrar para dentro das flores, abraçar para dentro do mar, como se tudo fosse fácil, beber da torneira aberta da chuva ou perceber a tua boca enquanto ela repete a redondeza do amor.


dedicado à minha querida companheira de ofício, elvira victorino.


terça-feira, 16 de abril de 2013

# 25



a verdade é que a primavera cabe em qualquer lugar, mesmo no apertado silêncio entre dois livros de poesia, mesmo entre o teu peito e o meu, quando nos abraçamos para dar sorte ao amor. quer venha a andorinha, de tocha na mão, ardendo com a ansiedade das mimosas, quer ela se perca do outro lado do tempo, imune à litania dos gatos.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

sábado, 13 de abril de 2013

# 23



quando deixas de cozer pão em casa, ela esvazia-se de amor e vai caindo para os lados, como uma palavra sem alcateia, um nome de qualquer coisa em extinção, não tarda e o jardim entra pela janela, como um inverno furioso, a porta deixa de caber na chave e tudo se perde, como se no centro da casa houvesse um ralo que dá para o âmago da terra, inclinando para si a mais pesada das lembranças.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

# 22



sempre que demoras a regressar a casa, ela inquieta-se, dobra-se sobre o caminho, espreita como o silêncio pode ser interrompido, um ranger de esquina, os melros levantando das sombras e tudo se encolhendo, como uma mãe aninhando-se sobre os filhotes, protegendo a mais pequena prova, promessa que garantisse a primavera, com alguma chuva e a certeza das frézias, até que a porta não aguente mais o peso dessa míngua e sobre apenas uma palavra, a minutos de se tornar uma ruína.