quinta-feira, 18 de abril de 2013
quarta-feira, 17 de abril de 2013
# 27
não me lembro de metade das coisas que vivi
parece que não fui ou que me adiei até agora
olho para as velas no bolo de aniversário
e só penso no tempo que me faz falta
o tempo que foi igualzinho àquele que na tua mão
se gasta a contar conchas na praia
podias ficar a vida toda a contar conchas
que nunca ias perceber quantas há
ou pior
que nem todas as conchas do mundo te fariam um homem rico
se a riqueza afinal vem de percebermos que não vale a pena
contar nada
nem moedas nem oliveiras
nem pontes nem sapatos
nem sequer rebuçados grandes ou pequenos
quem sabe algumas nuvens
daquelas que passam depressa (e mesmo assim
nunca poderias contar a chuva
se a houvesse)
que um homem rico é aquele que ainda pode soprar velas
no dia do seu aniversário
(e no soprar velas temos a certeza
do amor ainda ser possível)
olha, não me lembro de metade das coisas que vivi
se calhar passaram precisamente por causa disso
de não as ter vivido
mas não me esqueço que fui pequeno
e que cabia no colo da minha avó e da minha mãe
e da cadela quando se desenrolava no jardim
não me esqueço que trepava às árvores
e voava com os ninhos que metia ao bolso
não me esqueço que dei importância os livros
que antes me cansavam
não me esqueço que tirei do mais fundo de mim
a ideia daquilo que tu és hoje
o meu espelho que se repete
a pensar no tempo
e a soprar comigo estas velas
sem perceber os meus três segundos de silêncio
a pensar que estou a pedir um desejo fabuloso
como um brinquedo cheio de luzes e serpentinas e música
quando os meus três segundos serviram
para este poema dizer que ia aparecer assim de repente
e que tu és afinal o meu maior desejo
# 26
a primavera disse-me que tudo é permitido. falar para dentro das pedras, escrever para dentro das nuvens, sussurrar para dentro das flores, abraçar para dentro do mar, como se tudo fosse fácil, beber da torneira aberta da chuva ou perceber a tua boca enquanto ela repete a redondeza do amor.
dedicado à minha querida companheira de ofício, elvira victorino.
terça-feira, 16 de abril de 2013
# 25
a verdade é que a primavera cabe em qualquer lugar, mesmo no apertado silêncio entre dois livros de poesia, mesmo entre o teu peito e o meu, quando nos abraçamos para dar sorte ao amor. quer venha a andorinha, de tocha na mão, ardendo com a ansiedade das mimosas, quer ela se perca do outro lado do tempo, imune à litania dos gatos.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
sábado, 13 de abril de 2013
# 23
quando deixas de cozer pão em casa, ela esvazia-se de amor e vai caindo para os lados, como uma palavra sem alcateia, um nome de qualquer coisa em extinção, não tarda e o jardim entra pela janela, como um inverno furioso, a porta deixa de caber na chave e tudo se perde, como se no centro da casa houvesse um ralo que dá para o âmago da terra, inclinando para si a mais pesada das lembranças.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
# 22
sempre que demoras a regressar a casa, ela inquieta-se, dobra-se sobre o caminho, espreita como o silêncio pode ser interrompido, um ranger de esquina, os melros levantando das sombras e tudo se encolhendo, como uma mãe aninhando-se sobre os filhotes, protegendo a mais pequena prova, promessa que garantisse a primavera, com alguma chuva e a certeza das frézias, até que a porta não aguente mais o peso dessa míngua e sobre apenas uma palavra, a minutos de se tornar uma ruína.
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