terça-feira, 9 de abril de 2013

# 21



eu sei que tenho um poema algures, pronto a sair. mas faltas tu, para lhe dar avanço, como se à primavera faltasse apenas um empurrão, para descer sobre as flores e sobre a copa das árvores, como uma cerimónia muito precisa, onde se baptizam as palavras com a doçura do amor.

domingo, 7 de abril de 2013

# 20



e tudo se resume a escrever num retrato, uma data, uma dedicatória, perpetuando-se um amor, perpetuando-se uma existência, anulando o tempo, com o próprio tempo. abril, 1921: ainda não morreram os poetas todos, nem foram escritas todas as palavras.

# 19



nenhuma palavra, nenhum deserto, nenhuma estrela. apenas a respiração, o eco dentro do búzio, a maré descendo e a maré subindo. até ser tempo de morrer, como qualquer outra trepadeira.

sábado, 6 de abril de 2013

# 18



estou cansado de tanta chuva, isto é, de não me conseguir levantar com o peso da roupa ensopada, o ter estado a noite inteira a tapar os buracos desta inundação, tantas formas de ocupares o espaço em branco. não podias ser música? ou então travessa que se inclina e aparece no centro de um poema?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

# 17



trouxe-te para dentro de casa, que é como quem diz, o meu coração desabitado e juntei-te aos livros que me ensinaram a rezar às flores, como catavento reformado a quem se pede que fique quieto.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

# 16



às vezes o amor é uma casa com uma escada interior em vez de varandas a dar para o parque. sobes a vida inteira e acrescentas os andares que são precisos, para perceberes que vale a pena chegar ao fim, ter uma porta e entrar ou então dar com uma janela no sótão e pedir aos deuses que te dêem asas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

# 15



sempre esta hesitação, falar ou guardar as mãos, dizer a cor e o ângulo das palavras ou fechar tudo dentro de uma caixa, como quando se quer semear fora de tempo e é quase certo que a semente adormeça. entretanto decidimos que o tempo se desvia para trás de nós e arrastamos uma montanha de mecanismos de paciência, com os ponteiros atravessados, a magoar a relva e as sebes de alecrim. todavia, para me salvar desta tristeza, penso que tudo isto tem que ser assim: uma espera que aperfeiçoa a arte de amar. invernos que duram o que for preciso, para a primavera valer a pena.