sábado, 23 de março de 2013

# 4



decidi que não podia ficar à espera
da primavera

como as tulipas debaixo dos cobertores
e das ervas daninhas

às vezes podemos abrir a porta
pegar nas nossas pernas
e ir acordar mais à frente

onde somos os primeiros
a perceber

se o dia será feliz
e se valeu a pena guardar
no bolso do coração

o teu nome





sexta-feira, 22 de março de 2013

# 3




onde estás que te espero
há tanto tempo

preciso das tuas
mãos videntes

do teu nome
entrançado

onde estás que me
perco na chuva

como um baloiço
sem infância

como um poema
desancorado

desviando-se da
luz




# 2







o meu amor
entre as árvores
que me escutam

percebe uma forma
de deslocar-se
do meu coração

para o vácuo
delicado da poesia

quinta-feira, 21 de março de 2013

# 1




a primavera começa
quando perdes a conta
aos dias tristes
do silêncio

a casa abrindo as oliveiras 
enquanto sacode os livros cansados
do canto das sombras

as candeias do avesso
arejando como peças de seda
ao fim de tanto caminho

e depois um pássaro
riscando no ar
uma palavra que podia
ser nome

de flor


domingo, 17 de março de 2013

ROTEIRO DA ÚLTIMA PRIMAVERA



Aproxima-se o equinócio da primavera e, ao mesmo tempo, o dia mundial da poesia. Anuncio, assim, um projecto de escrita que durará 90 dias. Nada mais simples: um poema por dia, reservando-se o direito de a minha querida musa entrar em greve (trato-a bem, mas não podemos garantir nada)... Começo pelo título: ROTEIRO DA ÚLTIMA PRIMAVERA. Espero que gostem da ideia!

Abraço, daniel.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

adeus:




demorei metade da minha vida a perceber que o nosso amor nunca existiu. era apenas um poema inédito, num livro cosido à mão, manuscrito com a caligrafia de um coração cego. podes esquecer-me sem remorso, podes voltar a passar por mim na rua, podes até voltar a dar-me flores, não importa. deixei de acreditar na eternidade, estou de acordo com o meu corpo que envelhece. podia morrer agora mesmo, sem ti. tudo teria valido a pena da mesma maneira. tu por fora de mim, tu por mim dentro, a cidade connosco, a cidade deserta. o tempo num segundo, a vida toda escoando como um grão através da geleia do dia. eu tenho a certeza que este é o último poema em que penso em ti. a partir de amanhã, serás outra pessoa.