quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

o farol



um farol é um poema que tens no teu coração rodando sobre as calhas do amor, um poema transparente, com um longo cachecol de luz, interrompendo a agudeza da noite. chama as palavras e a música, que vêm como ondas muito delicadas, ondas doces de flor de laranjeira, esvoaçando como se fossem garajaus, rosados pela boca ansiosa do silêncio. e depois a espera alumia-se, numa cintilação que é feita de portões abertos e ilhas perfeitas. falta apenas o teu barco, ou o teu nome, ou uma garrafa com o teu barco com o nome lá dentro, derivando, tranquilamente, como se o destinatário fosse certo e o remetente eterno.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

ensaio sobre o futuro



Parece tudo incerto, cheio de caminhos que se interrompem uns por cima dos outros, como vagas de dois mares dando à mesma costa. A erosão do horizonte diluindo-se com a manhã sobreposta, palavras e vértebras de música que não se adaptam à violência do silêncio. No entanto uma ponte promete levantar o frio, com macieiras do tamanho de eucaliptos, constantemente em flor, fotografia perpétua de um sonho. Escuto o coração, um nome regressa para me abrir a casa, recomeço tudo de novo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

a música da tristeza



fiz um poema para te explicar o amor, compus uma teoria com o tempo todo que estive à tua espera: o amor é uma palavra que te procura. acabei por dizer sombras do que queria, a poesia sabe pouco do que o coração sente, do que as mãos pensam, quando pega na ideia da tua presença, na janela de todos os dias, dizendo que já não é preciso procurar mais. por isso é que há tanto silêncio à volta da poesia, quanto céu sem estrelas, quanto beijo sem boca e poetas sem tempo, guardando versos nos bolsos rotos dos casacos, alimentando os pássaros atentos, os únicos que prestam atenção à música da tristeza.


sábado, 29 de dezembro de 2012

diz-me



diz-me como é o amor do teu lado. diz-me se vês a mesma casa à nossa espera. diz-me se te sabe a rosas a lembrança da nossa sede. diz-me se te dói nalgum lado o coração que nos pertence. diz-me se a música deixou de voar, que poema ataste à tua boca, que fotografia tens na tua almofada. diz-me, é possível sermos apenas um?


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

as gaivotas



são elas que me explicam o mar: falam-me de um modo oblíquo ao peso do céu, caindo no meu coração. dizem-me desse instante que dura a vida, glorificando a luz e a leveza: para seres gaivota tens de conhecer o teu dia, medir o peso das nuvens, a espessura do vento e libertar a alma. com pedras no peito não chegas a sair do poço do silêncio, precisas de uma cantiga de amigo na tua boca, um fado nas tuas mãos, uma promessa na tua sede. o mar, depois, há-de ser simples de entender.



para a maria augusta, autora da foto e incentivadora do voo.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012



olha que lindo, construí este mundo para que depois inventasses tu a poesia. olha que lindo, diz-me agora o que vês se levas o fim do dia no coração.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

natal (com asas), sem mapa, ainda:



é natal no meu coração, finalmente cresceram-me as asas. todos estes dias à espera, escrevendo cartas, traçando um caminho contra a sede que secava o poço da alegria. agora acrescento uma estrela no dia das palavras, canto um poema, elevo a luz do silêncio à condição de pássaro de fogo. posso ir ter contigo?