sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o começo do mundo



o começo do mundo foi a coisa mais triste de que há memória, não estava lá ninguém para se emocionar com aquela novidade nem estranhar como é que antes disso não havia nada: para um poeta a coisa era simples, punha-se uma música a balancear o vazio e depois a luz tratava do mistério do silêncio. para uma criança, ainda era mais simples: plasticina, marmelada e bolachas maria, eis como se enche um universo.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

outra vez, com álvaro de campos



vou despejar o meu coração, há muito que transborda pelas minhas mãos, jasmineiro que trepa pelas casas brancas do tempo. preciso delas para me levantar do chão, o inverno está a chegar e há gatos que não têm casa, é preciso abraçá-los antes que a noite os avarie. vou fazer como uma grande mala de viagem que se anulou: atiro-a para o meio da cama e recupero apenas um pijama: o meu coração há-de aguentar-se sem esse excesso de bagagem e eu, cansado da tristeza de estar sozinho, hei-de adormecer à janela, com um buraco no meu peito e dois gatos no meu colo, arranhando com todo o carinho, esse poema de flanela, que sobrou.




os arcos-íris



os arcos-íris não existem, são construções delicadas dos sonhos das nuvens, uma maneira de dizerem que não carregam apenas chuva. os arcos-íris não existem, duram o tempo que demoras a preparar os olhos para os compreenderes, quando dás conta já lá não estão, deslizaram para o mar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

um beijinho, davas?



hoje escrevi-te uma carta de amor. arejei as costuras desse poema longo que é a promessa com que sou teu, nessa bainha do coração que sobe e desce, conforme chove e fazes mais falta ou está sol e se torna insuportável girar à volta do silêncio. hoje escrevi-te, dizia, uma carta de amor. comecei com o teu nome, coisa linda de repetir: enchi o papel todo com essa música. no final sobrou um cantinho para dizer as saudades. só não deu para te pedir um beijinho. davas, se pudesses?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

hera, um nome, subindo:



como quem na noite procura a entrada da manhã e fica à espera, vou à tua procura. quieto como um candeeiro enterrado há milénios na praça, avariado, como um gato sem preguiça. é da tristeza de não lembrar ao certo o teu rosto, cores de água a confundir o silêncio, o teu nome não, que ele é feito daquelas heras que vão subindo pelas paredes, iludindo a cal desbotada com um rumor de primavera alada.

domingo, 16 de dezembro de 2012

elegia para newtown, depois de ver o filme detachment:


acorda. não deixes que o tempo passe sem teres amado qualquer coisa. ama o mais que puderes, mesmo quando amas sozinho. de que outra forma poderás sorrir sobre a agudeza de haver apenas uma oportunidade para tudo o que vês à tua volta? acorda. dá sentido aos teus braços e às tuas pernas e se puderes ao teu umbigo também. lembra-te de onde vieste, reata o cordão que te liga ao que é mais importante. o ricardo reis era um chato mas tinha razão quando pedia que abdicasses e fosses rei das tuas decisões. acorda, acorda, acorda. pensa nas vinte crianças que alguém igualzinho a ti matou sem que algum deus o detesse. acorda, que estás sozinho neste mundo quando dormes. acorda e vê que podes cantar e dançar a qualquer hora e há tanta poesia guardada para ti e tanta música que podes fazer quando saltas no chão e quando trepas às nuvens. acorda. pára de julgar o momento que se esforça em ser apenas o presente, o contínuo presente para desembrulhares com carinho, não tens outro natal assim, inspira, respira, transpira. acorda, acorda, acorda, acorda, acorda. a tua vida não é normal, a tua vida é incrivelmente bela, mas tens de acordar. acorda, vá lá, ao menos tu que ainda o podes fazer. bom dia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

procura



fui procurar-te, deixei recado, repeti os arcos e os degraus, subi às árvores e nos cantos deixei uma palavra, como os cães quando estão perdidos. mesmo sabendo que partiste, quando o eléctrico deixou de puxar o coração.