segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

águas de dezembro: bossa nova contida



é um vento desperto, a porta tremeluzindo, o esplendor da manhã. é um pouco de chuva, laranjas espreitando, na tarde recuada. é uma estrela na asa do poema, o presépio contando as promessas, o frio chegando. é um aloé boquiaberto, coração de fogo descalço, à espera de cantar. e é o tempo minguando, a vida pedindo, para ficar.

domingo, 9 de dezembro de 2012

o fim do mundo



o mundo vai acabar não tarda nada. quando deres conta a tarde esvaziou-se à tua frente e ficas a contar os livros que ainda tens para ler. não vai dar tempo, deixa estar. assim como assim, esses poetas, foram felizes no primeiro instante da palavra. sozinhos, mas felizes, que nenhum outro amor dura tanto.

requiem para álvaro de campos



o meu coração parou para sentir. despejou-se das palavras e atirou-se ao chão. agora é um saco vazio circulando com a luz adormecida, revirando as promessas, entupindo o esgoto.

sábado, 8 de dezembro de 2012

à espera.


dava tudo para ser a macieira velha, a que já nem lembra da cor do verão nem do peso da doçura, a que se encosta devagar para o lado da sombra e espera que as folhas caiam, para ter que contar, para ter que dizer, para ficar mais leve e esperar um dia de inverno, com as suas garras de vento, e finalmente cair para o lado, onde está o brinquedo que perdeste, à espera de ser encontrado, mas tudo isto se derem por mim, tudo isto se me quiserem levantar, tudo isto se finalmente repararem, que há um quintal atrás da casa, à espera.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

selecção natural



só me apetece guardar cacos. cerâmicas tão gastas que deixam passar a luz do silêncio. arranjo espaço no jardim, como para tudo o que ainda pode ter concerto. misturo a terra com o desejo de tardes mais longas, passadas contigo. aos poucos a espera há-de perceber que pega de estaca, florindo, compassando, a selecção natural do que vale a pena.

domingo, 2 de dezembro de 2012

os observadores



é certo que deus não fala, mas move-se e observa, adormece e reacorda. podes fazer-lhe festas e pegar nele ao colo. no instante em que julgares que existe, ele está dentro de ti. e então és tu quem repete a criação do mundo, ronronando.

sábado, 1 de dezembro de 2012

chamando



o meu coração está mais forte. caiu tantas vezes que se reconstruiu como uma cidade preparada para a subida das águas e a sede dos incêndios. o meu coração está mais forte e podes perceber como se aguenta em pé: uma música a tocar com a cauda de um piano, uma galeria exposta, sonhos desenhados com o cuidado de durarem muito tempo. o meu coração está mais forte. podes entrar à vontade, já nem precisas bater à porta, por isso é que o fiz desse tecido etéreo que são as palavras: uma a uma, se prendendo numa estrofe segura, cantando, sussurrando, chamando.