quinta-feira, 25 de outubro de 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
arte poética
primeiro tens um acordar súbito
mesmo com os olhos fechados
uma música abre o teu coração
vais à procura de uma janela
e encontras um espaço
aberto sobre uma varanda
o teu corpo estremece
e sabes que o amor está próximo
como uma vela deslizando
com a tua mão
através da noite
depois deixas as palavras
retomar o seu lugar preferido
à beira da boca
que respira rente ao silêncio
e tudo pesando apenas o necessário
para não se cair
para não se evaporar
para não se escurecer
às vezes tens tempo de ressuscitar
e ver o lado de lá desse mundo
que criaste
às vezes o poema pertence-te
por uns segundos
e és feliz
sábado, 20 de outubro de 2012
Daniel Gonçalves (1975-2012)
se morreres é muito simples
põem o ano em que nasces
ao lado do ano em que desaconteces
perguntarão aos teus amigos
o que fazer ao espaço
que deixaste vago
ou que poema terá sido maior
se importa agora um gato dormindo
a sua tarde
mas não saberão dos gerânios transplantados
os cuidados precisos para os guiar no inverno
nem do livro deixado no início
nem do disco por ouvir
a promessa que devia ter chegado ao fim
a remissão dos pecados leves
a arquelogia pendente de todos os outros
não saberão da tristeza escondida
a repetida música que sempre dizia
tudo acaba sem começar
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