sábado, 20 de outubro de 2012


Daniel Gonçalves (1975-2012)

se morreres é muito simples
põem o ano em que nasces
ao lado do ano em que desaconteces

perguntarão aos teus amigos
o que fazer ao espaço
que deixaste vago

ou que poema terá sido maior
se importa agora um gato dormindo
a sua tarde

mas não saberão dos gerânios transplantados
os cuidados precisos para os guiar no inverno
nem do livro deixado no início
nem do disco por ouvir

a promessa que devia ter chegado ao fim
a remissão dos pecados leves
a arquelogia pendente de todos os outros

não saberão da tristeza escondida
a repetida música que sempre dizia

tudo acaba sem começar




amei-te um dia
três minutos
que desviaram
a eternidade

tudo o resto
é uma longa
viagem

na deriva morna
que nos adormece
e esquece

quarta-feira, 17 de outubro de 2012




fiz-te um vestido
com a música
que a chuva inclinava

tirei-te as medidas
do mesmo bolso
onde o coração te esperava

subi-te a bainha
à medida exacta
com que te sonhava

mandei-te o vestido
na roda perfeita
de um poema musicado

esperei que o vestisses
descendo sobre o corpo
como um beijo recitado

e na volta mandasses
a certeza colorida
de um verão acordado




terça-feira, 16 de outubro de 2012



egon schiele não teve tempo
de chorar a morte de gustav klimt

e eu com todo o tempo de
chorar a morte deles






saí de casa para ir ter contigo
estou há mil anos
sem te encontrar

entrei em todas as noites
e a todas as constelações
te fui chamar

subi todos os mares
e em todas as praias
te quis achar

e se mais árvores houvesse
mais pássaros tinha trazido
para me ajudar






a minha casa é
tranquila

como a minha
gata

esperando
a aranha

e o seu pêndulo
invisível

a minha casa é
transparente

como a minha
aranha

fitando
a gata

e a sua sonolência
evidente




o outono
à volta do meu
cansaço

pássaro naufragado
na sonolência
das folhas

música lentíssima
como água
sem tempo

o outono
subindo pelo
meu silêncio

dióspiro magnífico
caindo no centro
da boca