sábado, 7 de julho de 2012




nesta cidade sinto-me um fado
enquanto sobe e desce
a minha solidão

inclino-me sobre o passado
é uma saudade que cresce
repetindo o meu coração

espreito a manhã cansada
na luz que o silêncio deita
no amor que eu sempre juro

e é uma canção desalinhada
um fado que se põe à espreita
enquanto eu te procuro



quando adias a tua sorte
o que te sobra é um lugar vazio
onde ninguém mais se senta


segunda-feira, 7 de maio de 2012

a música veio contar-me um segredo





a música veio contar-me
um segredo

o amor consegue
ver-nos

como os gatos vêem
tons de azul

na escuridão
da noite







domingo, 6 de maio de 2012


foto de pepe brix (nepal)



o mundo é uma construção vastíssima do silêncio. se soubermos escutar o peso das pedras vemos como tudo demorou milhões de anos a ganhar o seu lugar. cada lugar é exacto como o coração é a água pura que nos move pelo tempo das coisas e as coisas têm sempre uma forma delicada de parecerem próximas. podes chegar à montanha mais alta e dizer nunca estive aqui. depois olhas em redor e três crianças vêm ter contigo. sorriem para a tua máquina fotográfica. pegam em ti ao colo. levam-te a casa. mostram-te como se acende o fogão. como se cozinha o pão. como se come o pão. como o pão nunca custa a ganhar e o que é difícil é mesmo saber preservá-lo do bolor.
dizia que o mundo é uma construção vastíssima do silêncio. isto porque o silêncio é a poesia de todas as coisas quando não há ninguém para saber que elas existem. às vezes interrompes esse mistério e chegas a uma aldeia achada no meio de tudo. quem diz que chegaste ao fim do mundo ou quem diz que encontraste uma aldeia perdida. nunca saiu de casa nem nunca verdadeiramente se achou. este mundo não deixa ninguém ficar sozinho. nem quando morres. porque podes prosperar com a música da eternidade. sobretudo quando te deixas levar ao colo por três crianças. que elas hão-de guardar para sempre o chocolate que desembrulhaste na boca delas. como estrela que irradia mais uma fotografia e diminui a extensão do esquecimento.

sábado, 3 de março de 2012

de volta a casa





estou de volta a casa
e espero que não tenhas saído do lugar
nem tu nem o gato nem a tarde de verão do lado de fora
da nossa tristeza

estou de volta a casa
e sei de cor o poema com que me hás-de perdoar
estes anos à toa

sei a música que vou pôr a tocar
o compasso certo da respiração
o ângulo perfeito das minhas mãos
e o recuo e o avanço do amor

estou de volta a casa 
para retomar o momento perfeito que houve
antes de tudo se ter perdido
na voracidade do tempo

estou aqui

onde estás?



domingo, 19 de fevereiro de 2012

domingo à tarde com matisse e radiohead



para estar sozinho basta ter o coração disponível
as arestas do silêncio afiadas
e a música à espera do momento certo

assim que abres o livro
e dás com um quadro de matisse
mostrando precisamente
a tua desorientação doce



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

do amor e outros esquecimentos (com chagall e bon iver)





o amor é uma coisa muito estranha, nunca sabes quando é a valer que ele te cega os sentidos e te amplia a sede do desejo. nunca sabes qual dos primeiros amores é verdadeiramente o último. o amor é uma coisa muito estranha, um espinho que te amortece uma queda altíssima, uma pétala que te empurra pelo precipício e tu adoras cair e depois recolher os teus pedaços e ficar à espera de continuar a cair, a cair até que um dia voes como as pedras atiradas sobre a água. o amor é uma coisa mesmo estranha. quando dás conta deixas de viver e apenas respirar ofegantemente como se morresses e depois ficas sozinho, como uma criança órfã no meio do jardim. passas a vida toda à procura e tudo o que encontras são poemas, canções, livros que contam coisas que poderiam ter sido mas que nunca passaram de palavras mais estranhas ainda. lugares que não podem conviver com o tempo que passa, que passa, que passa.