domingo, 19 de fevereiro de 2012

domingo à tarde com matisse e radiohead



para estar sozinho basta ter o coração disponível
as arestas do silêncio afiadas
e a música à espera do momento certo

assim que abres o livro
e dás com um quadro de matisse
mostrando precisamente
a tua desorientação doce



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

do amor e outros esquecimentos (com chagall e bon iver)





o amor é uma coisa muito estranha, nunca sabes quando é a valer que ele te cega os sentidos e te amplia a sede do desejo. nunca sabes qual dos primeiros amores é verdadeiramente o último. o amor é uma coisa muito estranha, um espinho que te amortece uma queda altíssima, uma pétala que te empurra pelo precipício e tu adoras cair e depois recolher os teus pedaços e ficar à espera de continuar a cair, a cair até que um dia voes como as pedras atiradas sobre a água. o amor é uma coisa mesmo estranha. quando dás conta deixas de viver e apenas respirar ofegantemente como se morresses e depois ficas sozinho, como uma criança órfã no meio do jardim. passas a vida toda à procura e tudo o que encontras são poemas, canções, livros que contam coisas que poderiam ter sido mas que nunca passaram de palavras mais estranhas ainda. lugares que não podem conviver com o tempo que passa, que passa, que passa.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

coisas pequenas



a minha vida faz-se de coisas
pequenas

um pequeno almoço perfeito
três páginas de um livro de poesia
uma nuvem distante na sua chuva fabulosa

um silêncio breve à espera de uma ideia
a música que nesse entretanto foi buscar outra idade
e a desatenção mínima com que reparo
em tudo

a minha vida faz-se de coisas
pequenas

mas pesam-me os ombros de tantos detalhes
e tantas pérolas e tantas coisas pequenas
que me arrasto no chão

como quando uma cotovia
tem de levar com a sua árvore às costas




domingo, 1 de janeiro de 2012

o que fazer quando o inverno ainda agora começou



o que fazer quando o inverno ainda agora começou
o que dizer se as mãos passam mais tempo nos bolsos
incumprindo com seu dever de pêndulos das palavras cegas

o que saber se fechamos os olhos tão cedo
se o mundo se fecha tão cedo também e sabemos que do outro lado
do outro lado há praias abertas todo o dia

o que cantar se nenhum pássaro se chega a nós
para nos ensinar a estar calados e escutar o coração das pequenas coisas

o que esperar deste inverno que ainda agora saiu de casa
deixando a porta aberta e o chá arrefecendo?


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

um poema acordado agora de um sono antigo






um círculo perfeito pássaros de giz atravessando a noite azul
pássaros de miró com uma lua de música presa ao silêncio

pássaros como uma só cotovia marcando o coração do poema
tingindo as palavras como uma romã dissolvendo o seu verão

à nossa volta nenhum baloiço se enraiza sozinho na infância
nenhum candeeiro se desliga nenhum lenço fica por tingir
tudo é límpido tudo é pacífico como num claustro de rosas

puxo para mim esta canção como se me abrigasse da chuva
como se de repente nenhum outro caminho levasse ao amor 
e cada instante fosse um rosto de paz um terraço de água
uma caravela no horizonte pondo estrelas na boca da noite

este poema que é uma carícia azulíssima nos cobrindo a boca
este poema que é uma ilha inundada numa manhã perfeita

porque os pássaros quando nos falam assim estão a sonhar
pondo pérolas como rebuçados de poesia na boca da tristeza



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

com paul klee (flora on the sand)



encontro cores e música neste outono que descai ao fim da tarde: a meio do atlântico sobra apenas o fogo e a transparência da água: faltam árvores altíssimas, daquelas em que podes usar as mãos para escolher o tom do teu sorriso e o espírito do teu sonhar.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MINHA CASA

A minha casa ardeu de tanta luz que recebeu este verão. Era meio dia da tarde de agosto quando tudo nela se esqueceu. De repente, vindo do nada, o sol passou de estrela a verniz de parapeito. Uma cicatriz que tinha há séculos no meu coração deixou de bater contra a minha boca que se extasiava apenas de duas ou três palavras. Agora canto e canto os poemas impossíveis. Sou uma estrela. A minha casa é onde finalmente os pássaros depositam as asas ao fim do dia.