domingo, 1 de janeiro de 2012

o que fazer quando o inverno ainda agora começou



o que fazer quando o inverno ainda agora começou
o que dizer se as mãos passam mais tempo nos bolsos
incumprindo com seu dever de pêndulos das palavras cegas

o que saber se fechamos os olhos tão cedo
se o mundo se fecha tão cedo também e sabemos que do outro lado
do outro lado há praias abertas todo o dia

o que cantar se nenhum pássaro se chega a nós
para nos ensinar a estar calados e escutar o coração das pequenas coisas

o que esperar deste inverno que ainda agora saiu de casa
deixando a porta aberta e o chá arrefecendo?


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

um poema acordado agora de um sono antigo






um círculo perfeito pássaros de giz atravessando a noite azul
pássaros de miró com uma lua de música presa ao silêncio

pássaros como uma só cotovia marcando o coração do poema
tingindo as palavras como uma romã dissolvendo o seu verão

à nossa volta nenhum baloiço se enraiza sozinho na infância
nenhum candeeiro se desliga nenhum lenço fica por tingir
tudo é límpido tudo é pacífico como num claustro de rosas

puxo para mim esta canção como se me abrigasse da chuva
como se de repente nenhum outro caminho levasse ao amor 
e cada instante fosse um rosto de paz um terraço de água
uma caravela no horizonte pondo estrelas na boca da noite

este poema que é uma carícia azulíssima nos cobrindo a boca
este poema que é uma ilha inundada numa manhã perfeita

porque os pássaros quando nos falam assim estão a sonhar
pondo pérolas como rebuçados de poesia na boca da tristeza



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

com paul klee (flora on the sand)



encontro cores e música neste outono que descai ao fim da tarde: a meio do atlântico sobra apenas o fogo e a transparência da água: faltam árvores altíssimas, daquelas em que podes usar as mãos para escolher o tom do teu sorriso e o espírito do teu sonhar.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MINHA CASA

A minha casa ardeu de tanta luz que recebeu este verão. Era meio dia da tarde de agosto quando tudo nela se esqueceu. De repente, vindo do nada, o sol passou de estrela a verniz de parapeito. Uma cicatriz que tinha há séculos no meu coração deixou de bater contra a minha boca que se extasiava apenas de duas ou três palavras. Agora canto e canto os poemas impossíveis. Sou uma estrela. A minha casa é onde finalmente os pássaros depositam as asas ao fim do dia.

domingo, 26 de junho de 2011

A NOITE





A noite estava para vir no teu regaço. Contente de regressar ao ventre imaculado do amor. Mas tu atrasaste-te, demoraste tanto tempo a escrever o meu nome. Agora a noite chegou sozinha. Fria. Alta demais para lhe tocarmos.

A CHUVA SOBRE O VERÃO





A chuva sobre o verão cai como uma cidade se arrastando contra o mar, querendo vencer o tamanho das ondas quando elas vêm com o grito antigo que nega o silêncio. E por isso dói como amor descorrespondido, como amor calado, como amor ao contrário na flor exausta da espera. A chuva sobre o verão é o teu rosto feito num rosário de tristeza, que ninguém reza, que ninguém apanha do chão, mesmo que ilumine o charco da estrada, como aquelas estrelas que parecem cair do céu, resplandecendo num mínimo instante a nossa desatenção.

terça-feira, 14 de junho de 2011

SEGUE EM FRENTE




Segue em frente. Tens uma palavra nova para aprender, quando chegar a noite, quando chegares até ela e ela te abraçar, lentamente, como uma estrela avisando-se ao longe.