sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MINHA CASA

A minha casa ardeu de tanta luz que recebeu este verão. Era meio dia da tarde de agosto quando tudo nela se esqueceu. De repente, vindo do nada, o sol passou de estrela a verniz de parapeito. Uma cicatriz que tinha há séculos no meu coração deixou de bater contra a minha boca que se extasiava apenas de duas ou três palavras. Agora canto e canto os poemas impossíveis. Sou uma estrela. A minha casa é onde finalmente os pássaros depositam as asas ao fim do dia.

domingo, 26 de junho de 2011

A NOITE





A noite estava para vir no teu regaço. Contente de regressar ao ventre imaculado do amor. Mas tu atrasaste-te, demoraste tanto tempo a escrever o meu nome. Agora a noite chegou sozinha. Fria. Alta demais para lhe tocarmos.

A CHUVA SOBRE O VERÃO





A chuva sobre o verão cai como uma cidade se arrastando contra o mar, querendo vencer o tamanho das ondas quando elas vêm com o grito antigo que nega o silêncio. E por isso dói como amor descorrespondido, como amor calado, como amor ao contrário na flor exausta da espera. A chuva sobre o verão é o teu rosto feito num rosário de tristeza, que ninguém reza, que ninguém apanha do chão, mesmo que ilumine o charco da estrada, como aquelas estrelas que parecem cair do céu, resplandecendo num mínimo instante a nossa desatenção.

terça-feira, 14 de junho de 2011

SEGUE EM FRENTE




Segue em frente. Tens uma palavra nova para aprender, quando chegar a noite, quando chegares até ela e ela te abraçar, lentamente, como uma estrela avisando-se ao longe.

QUIETO




Quieto como se alguém me estivesse a contar um poema. Para não perder a música, as asas desse lugar fabuloso. O mundo compondo-se, perfeito, através de uma janela quebrada.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ACORDEI CONTIGO




Acordei contigo atravessado no meu silêncio. Voei contigo durante toda a noite e durante toda a noite foste mudando de pessoa. Mudando de pessoa foste mudando de cidade, de templo, de árvore. Mudando assim tanto mudei-me também: de tristeza para alegria, de alegria para consternação, de consternação para cansaço.

domingo, 12 de junho de 2011

POEMA COM PAUL MCCARTNEY




Eu posso esperar mais um dia. Não morro esta noite. Olho a cidade tomando um chá que dava para nós os dois. Posso esperar mais um dia, mas não é este o propósito de estar cantando. Deste lado, sabes bem, há um corpo que te quer levar a dançar. Uma música que é a asa cantante que nos faz esquecer que morremos. Eu posso esperar mais um dia, mas a morte não.