terça-feira, 14 de junho de 2011

QUIETO




Quieto como se alguém me estivesse a contar um poema. Para não perder a música, as asas desse lugar fabuloso. O mundo compondo-se, perfeito, através de uma janela quebrada.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ACORDEI CONTIGO




Acordei contigo atravessado no meu silêncio. Voei contigo durante toda a noite e durante toda a noite foste mudando de pessoa. Mudando de pessoa foste mudando de cidade, de templo, de árvore. Mudando assim tanto mudei-me também: de tristeza para alegria, de alegria para consternação, de consternação para cansaço.

domingo, 12 de junho de 2011

POEMA COM PAUL MCCARTNEY




Eu posso esperar mais um dia. Não morro esta noite. Olho a cidade tomando um chá que dava para nós os dois. Posso esperar mais um dia, mas não é este o propósito de estar cantando. Deste lado, sabes bem, há um corpo que te quer levar a dançar. Uma música que é a asa cantante que nos faz esquecer que morremos. Eu posso esperar mais um dia, mas a morte não.

ACORDAR CEDO




Acordar cedo para não perder o regresso do pássaro de fogo. Sair à rua com a certeza da casa onde queremos ir. O cão pela trela, feliz. Ambos sabemos a que sabe o amor: é uma meticulosa essência de silêncio que se deve levar a passear.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

ESTOU DO AVESSO




Estou do avesso, não porque este mundo está ao contrário, não porque deixei de existir por fora, mas porque agora quem me representa é a minha enorme tristeza. Esta tristeza fez-se, há muito tempo atrás, de tiras sobrepostas como numa manta antiga, feita de retalhos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ESTOU SOZINHO




Estou sozinho, tão sozinho que esqueci o meu nome. Ninguém mo pergunta mais. Aliás, a única palavra que vou repetindo é o teu nome, mas tu, como eu, estás sozinha, também, desse teu lado de onde me mandaste embora.
Estou sozinho, tão sozinho que deixei de ter vontade de ser feliz. Vou durando como um fósforo que caiu na ranhura do soalho. E só um incêndio nesta casa me há-de iluminar por dentro. Para tudo se acabar de vez.

domingo, 5 de junho de 2011

TU ÉS QUEM AMAS





Tu és quem amas. Se proteges o vento o teu corpo esvoaça pela janela. Se beijas o mar o teu cabelo desfaz-se em mil pérolas de espuma. Se acaricias o sol o teu coração ilumina a noite. Se dás de beber a um gato a tua voz acorda os gerânios nos desertos. Se pensas em mim eu sei que volto a nascer.