domingo, 12 de junho de 2011

ACORDAR CEDO




Acordar cedo para não perder o regresso do pássaro de fogo. Sair à rua com a certeza da casa onde queremos ir. O cão pela trela, feliz. Ambos sabemos a que sabe o amor: é uma meticulosa essência de silêncio que se deve levar a passear.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

ESTOU DO AVESSO




Estou do avesso, não porque este mundo está ao contrário, não porque deixei de existir por fora, mas porque agora quem me representa é a minha enorme tristeza. Esta tristeza fez-se, há muito tempo atrás, de tiras sobrepostas como numa manta antiga, feita de retalhos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ESTOU SOZINHO




Estou sozinho, tão sozinho que esqueci o meu nome. Ninguém mo pergunta mais. Aliás, a única palavra que vou repetindo é o teu nome, mas tu, como eu, estás sozinha, também, desse teu lado de onde me mandaste embora.
Estou sozinho, tão sozinho que deixei de ter vontade de ser feliz. Vou durando como um fósforo que caiu na ranhura do soalho. E só um incêndio nesta casa me há-de iluminar por dentro. Para tudo se acabar de vez.

domingo, 5 de junho de 2011

TU ÉS QUEM AMAS





Tu és quem amas. Se proteges o vento o teu corpo esvoaça pela janela. Se beijas o mar o teu cabelo desfaz-se em mil pérolas de espuma. Se acaricias o sol o teu coração ilumina a noite. Se dás de beber a um gato a tua voz acorda os gerânios nos desertos. Se pensas em mim eu sei que volto a nascer.


COMPREENDO BEM




Compreendo bem que tenha de morrer um dia. Quando me puxaram do sonho a luz que me acordava era essa. O que me custa é não viver cinquenta anos no mesmo dia perfeito.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

ANTES DE ADORMECER




Antes de adormecer vou ter a certeza que estou sozinho em casa. Tenho tido a impressão que as paredes se inclinam sob a luz triste do silêncio, que alguém as dobra sobre mim, que alguém apequena esta casa para que eu não me sinta tão disperso, tão sozinho, tão dolente.


À ESPERA





À espera que chegue o tempo certo de regressar a casa. Em pé como às árvores ansiando pela primavera, para ver o comboio chegar, carregado de giestas e do perfume da terra morlhada. À espera que alguém repare nas minhas mãos vazias e me empreste um livro, outra mão como a minha e depois possamos ler juntos o resto da viagem, com o coração à janela e a tristeza à coxia.