domingo, 5 de junho de 2011

COMPREENDO BEM




Compreendo bem que tenha de morrer um dia. Quando me puxaram do sonho a luz que me acordava era essa. O que me custa é não viver cinquenta anos no mesmo dia perfeito.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

ANTES DE ADORMECER




Antes de adormecer vou ter a certeza que estou sozinho em casa. Tenho tido a impressão que as paredes se inclinam sob a luz triste do silêncio, que alguém as dobra sobre mim, que alguém apequena esta casa para que eu não me sinta tão disperso, tão sozinho, tão dolente.


À ESPERA





À espera que chegue o tempo certo de regressar a casa. Em pé como às árvores ansiando pela primavera, para ver o comboio chegar, carregado de giestas e do perfume da terra morlhada. À espera que alguém repare nas minhas mãos vazias e me empreste um livro, outra mão como a minha e depois possamos ler juntos o resto da viagem, com o coração à janela e a tristeza à coxia.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

UM DIA




Um dia regressas a casa e a primeira coisa que eu vou fazer vai ser sentar-te a um canto e adormecer olhando para ti. Quem diz adormecer diz registar as orlas magníficas, as pérolas que te inundam o silêncio. Um dia regressas a casa e eu posso finalmente fechar a porta, descansar um pouco os olhos e pousar este livro densíssimo que ameaçava nunca acabar.

DO NADA




Do nada, surgiu-me a ideia que não era feliz. Uma folha em branco que de repente aparece manchada. Uma nódoa de escuridão. Uma palavra desenhada ao contrário, por uma mão trémula. Uma palavra como a clarividência da morte anunciando que todo o tempo perdido é tempo a menos na perseguição da felicidade.
Do nada, apercebi-me que a grande angústia que me encharca os olhos e me despeja o coração é não ter feito ainda nada para ser feliz. Ter deixado passar a oportunidade de ir ter contigo, no meio da multidão inerte dos outros, e dizer-te, cara a cara, que és quem pode parar o tempo e devolver a eternidade aos sonhos.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

INSTANTE PERPÉTUO




O que vejo em ti é uma pose antiga que se fotografou no meu coração. Podia dizer a mesma coisa mostrando a única fotografia que guardo de ti. Estás de pé como uma redoma de luz contra o inverno. Por trás um relógio altíssimo a adivinhar o fim do tempo e ainda mais atrás o rio escoando. Nesse instante era para mim que olhavas e só a mim me davas atenção. Eu era um quadro antigo e os teus olhos o giz que desenhava uma promessa tão frágil. As coisas eram simples e tínhamos coragem para transgredirmos quase todas as regras. Talvez por causa disso os deuses puniram-nos a ousadia e aquilo que podia ter sido um filme foi apenas um fotograma, nem sequer um instante. Uma pose agora. Que eu altero conforme a música que toca e que, dada a distância, já não sei se é honesto ter-te deslocado da rua para um divã.

JÁ NÃO TARDA MUITO




Não tarda muito e vou morrer sem ter desfeito o sal de todas as mágoas. Antes de adormecer ou mesmo no instante em que adormeço sei que me faltou qualquer coisa. Uma música batendo com força no mecanismo febril do meu cansaço. Uma música triste, pequenina, azeda como um doce passado. Por isso  sinto que passo a noite a encharcar os meus lençóis com um choro convulso que não acorda ninguém. Um choro transparente que me escorre pelo corpo como suor brando. Não era para acordar ninguém que estas coisas sofrem-se sozinhas. Como um luto inseminado artificialmente. Varetas de lume exausto que entram pelos meus olhos adentro.
Já não tarda muito e morri. Não dancei o que tinha a dançar porque nunca soube fazê-lo à tua frente. Tu sabias dançar. Notava-se pelas tuas mãos soltando e velando o vestido imóvel. Tenho pena de o tempo se estar a acabar. Acabou.