sexta-feira, 27 de junho de 2014

ADC:arc / A Woman of the World





ela tornou-se uma estrela, todos a vêem, agora. deixou de ser o meu poema preferido, que não é possível um poema ser lido por tantos e haver tantos a pôr a mão onde apenas cabia a palavra perfeita.

ADC:aec / Commuter Love





há tantas pessoas no mundo que não podemos saber se todas elas existem, se calhar somos apenas uma dúzia de seres indigentes, aqueles que notamos à espera do comboio, aqueles de quem o perfume nos diz se é inverno ou verão, aqueles a quem o amor engana. se calhar o mundo é mais pequeno do que julgamos, cabe em cinco minutos de uma manhã a apear-se para o trabalho, com a dúzia de pessoas que nos hão-de esclarecer o mistério de termos acordado.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

ADC:aec / Don't Look Down





a cidade fica plana quando chega a noite, voamos quando pomos os braços no ar, reinamos sobre as sombras, as palavras soltas dos jornais, as montras que nunca deixam de vender. contamos as pedras que faltam na calçada, choramos do espaço que devia ser verde e pairamos no miradouro, a contar as vezes que a água enche o estuário. voamos quando pomos a boca a falar o que ia atrasado no nosso coração, e a cidade cada vez mais plana, tão plana que escorrega para dentro dos nossos bolsos e nós a crescer com a música que passa pelos nossos olhos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ADC:aec / Someone




o amor é uma palavra, apenas, a encher o vazio das garrafas, se elas vão com uma mensagem de esperança, na deriva de um endereço volátil.


ADC:aec / When a Man Cries




vês como parti o meu brinquedo preferido, como não adiantou esperar a tarde toda pelo comboio, como o bolo se acabou sem ninguém me avisar? vês pela minha cabeça afundada no enorme livro do silêncio, pela forma como desapareço mesmo à tua frente, pelo pó acumulado na mesinha de cabeceira? vês como caí pelas escadas e os meus pedaços a corar debaixo dos móveis, como tudo é um navio calado à espera de naufragar?

ADC:aec / Assume The Perpendicular





decidi crescer com a minha ideia fabulosa, criar-me como uma árvore, saltar à frente quarenta anos e ser alto e respeitado, com um jardim à minha volta a convidar os cães e os almoços de verão. podia ser uma torre em bolonha, uma montanha nos ombros da cordilheira, um cometa a sair da terra, mas como abrigar, depois, o pássaro feliz?


ADC:aec / Bath






o som que o mar faz quando chega a casa é igual ao teu nome, quando pronunciado, de dentro para fora.

terça-feira, 24 de junho de 2014

ADC:aec / If




se fores o caminho eu serei a vereda que te ladeia. se fores a noite eu serei o candeeiro que te vela, se fores o dia, ainda assim, continuarei aceso, não vá o verão fechar-se, de repente. se fores uma árvore, eu serei a chilreada feliz, a sombra que arredonda a suculenta bondade da tarde. se fores deus, eu serei o altar, a rosácea e a cruzada pacífica que te toma o lugar no paraíso. se fores um cavalo, eu sei que arranjarei forma de te pôr asas e contrariar a fé dos incrédulos e se fores um cão, uma libélula, uma folha de hera perdida, não importa a língua com que nos desentendemos, eu serei apenas o poema que te espera.





segunda-feira, 23 de junho de 2014

ADC:aec / In Pursuit Of Happiness





ponho-me à janela, com os braços tão longos que passaram a perna dos gerânios, a ver se chegas, com a fanfarra do verão a pôr festa à tua frente e atrás de ti apenas a parte do bilhete que diz que só pagaste a vinda. eu digo precisamente uma coisa e faço outra, fecho-me no quarto, sem ninguém, a olhar para a parte de mim que acontece, neste poema.

domingo, 22 de junho de 2014

ADC:aec / The Booklovers




herberto hélder diz a morte sem mestre, eça de queirós não acaba o romance, fernando pessoa diz em frente ao espelho. gil vicente quer o purgatório de volta, camões quer regressar ao oriente, bocage quer morrer dentro da garrafa. eugénio de andrade sabe de cor o nome das oliveiras, saramago sabe pôr glicínias na ilha árida, josé luís peixoto sabe dar a volta ao mundo. florbela espanca quer morrer antes de nascer, antero de quental quer tirar a pedra da cabeça, camilo pessanha quer contar a água do mundo. e eu quero estar com eles, quando tiverem sede, quando lhes doer as costas, quando lhes faltar o papel, quando o navio naufragar, quando a sorte mudar, quando o tempo passar depressa, quando a noite lhes fechar os olhos, quando embrulharem o poema inédito, debaixo da almofada que há-de queimar, com o peso do sonho.

ADC:aec / At the Indie Disco




ouço the divine comedy como tu comes chocolates, não sei passar sem a melodia perfeita, as palavras que se derretem na boca, os restos que sujam os dedos e que nunca ficam para trás, fechando o silêncio dentro da boca.

ADC:aec / Three Sisters




saber das coisas do mundo, perceber a origem do tempo, observar o mapa das estradas e ver como estamos longe de tudo, como não há pontes que cheguem para as margens que criamos. e depois esperar pelo outono, contar as folhas, os arrepios na pele, preparar a boca para os dióspiros, distrair o coração, se estamos sem casa.

sábado, 21 de junho de 2014

ADC:aec / Down In The Street Below




atravessa o mar e ignora o tamanho da noite, traz as saudades e os nossos brinquedos, vais ver que não pesam nada e se o mar acabar, continua a correr que eu vou no mesmo sentido, para te abraçar.


maninha, parabéns.

ADC:aec / The Lost Art Of Conversation




cura os males do mundo com as palavras certas, conversa-as no epicentro do coração, transmite-as na vibração solar do amor.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

ADC:aec / Becoming More Like Alfie




antes eu era magnífico, agora sou magnífico, mas com menos tempo de vida.

ADC:aec / Charmed Life




eu sei que não era a tua vez de entrar na minha vida, eu sei que não era ainda tempo de voares, de vires acompanhada de estrelas, de acordares os terrores do fim do mundo. eu sei que não eras tu quem eu esperava, se demorasse na estação, sem horário nem bilhete. eu sei que o teu nome era apenas uma flor que nasce velozmente no campo da primavera, que o teu choro era um avesso imprevisto, uma porta aberta a dar para o mar reconhecido, sem embarcação nem bússola. eu sei que no meu colo não havia espaço para ti, mas talvez seja por isso que o meu coração cresceu tanto, ao longo desta vida estranha, ocupando o universo desconhecido, para te servir de berço, agora.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

ADC:aec / Gin Soaked Boy




eu sou a rolha quebrada, a garrafa com o vinho a estragar-se. eu sou a metade da distância, com o sol sempre do outro lado. eu sou o teu laço, quando saltas nua para a água. eu sou o ruído esperado, no oblíquo risco sobre a música. eu sou a escuridão de dentro dos armários, quando ainda falta muito para mudar de estação. eu sou a tristeza a preto e branco, num filme sobre a ocupação do mundo pelas rosas. eu sou o credo adiado, se a vida estiver para acabar. eu sou o da ninhada inesperada, o que vai perder-se por ser fêmea. eu sou o poema que ninguém percebe, quando a gaveta se fecha, com a chave lá dentro, e o escombro da casa regressa ao plano original. eu sou, finalmente, a alegria comum, o corpo acordado para a filosofia elementar da respiração, se me falta tudo o resto.

ADC:aec / The Certainty of Chance




se amares tanto uma coisa, não podes copiá-la até teres a mesma caligrafia, o mesmo andar, o mesmo clima? se amares tanto uma coisa, é pecado andar com ela na cabeça, como diadema extravagante? se amares tanto uma coisa, é possível tornar-se teu o que foi feito para tapar os buracos do mundo? se amares tanto uma coisa, podes dizer que é tua, só porque sabes de cor o nome, a palavra, o momento exacto em que o oboé explica a certeza de um acaso, daqueles que mudam a sorte que estava traçada?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

ADC:aec / I Like








gosto da tua sombra quando estás de costas, do teu cabelo quando o cortas e fica a desencaminhar o chão da tristeza, da tua boca quando acertas a vogal de uma rima imprevista. gosto dos poemas que passas à frente, dos livros que não tiras do saco, do pó que deixas acumular nas músicas que já não giram, do canto do teu quarto onde pairam esquecidos os teus dedais. gosto dos sinais de trânsito que ignoras, quando vais apressada, das árvores que deixas de cumprimentar, das horas que passas a dormir, se te apetece esquecer a manhã. gosto de quanto pões no lixo, as ideias sem alicerce, as cores inanimadas, as roupas encolhidas e mesmo as cortinas mais velhas do teu sótão, mesmo quando elas já só demoram a morrer, do sol que lhes deu, se o verão estava por fora e os teus sonhos por dentro.






terça-feira, 17 de junho de 2014

ADC:aec / Tonight we fly




quantas vezes quiseste tomar à letra uma canção, fazê-la crescer na tua pele, como uma chuva que levasse para longe as coisas tristes, uma liga que apertasse a ferida e prometesse uma tatuagem no lugar de uma cicatriz? quantas vezes foste o refrão que atravessa a noite e voa ferozmente atrás da manhã, cantando o haver beleza, mesmo na escuridão do silêncio?


domingo, 15 de junho de 2014

ADC:aec / National Express



há-de haver uma ponte romana ainda de pé, uma via imensa que te leve para longe daqui, um aqueduto que conduza a tua última alegria, gota a gota, para um lugar onde a loucura seja admitida, pelo menos uma vez por dia. há-de haver, vais ver, uma manhã que seja um sonho de vincent van gogh, posto numa jarra fresca como os instantes que queremos sempre frescos, mas aos quais vamos tirando as inevitáveis pétalas que descaem, como a preparar um espírito para a sua eternidade.

ADC:aec / Lucy




no campo, atrasam-me as horas vastas, a aldeia que me deixa ser a mais alta hera, seguindo a vastidão da tua luz, e os animais que só hão-de morrer quando for preciso dar de comer ao inverno, e uma saúde que colhe papoilas e com elas faz um poema no teu peito, e a certeza de haver um céu limpo, para se perceber, na transparência do azul, a complicação das constelações.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

ADC:arc / Summerhouse




lembras-te do verão que nunca acabou, da casa erguida para durar uma estação, suportada pelas palavras dóceis, os poemas perfeitos, a chuva de lado, a acompanhar a noite, a bater contra a vedação e a vedação a deixar de fora os instrumentos desafinados, os candeeiros partidos, as roupas pesadas? lembras-te do verão que nunca acabou, da tua idade suspensa, da infância recuperada, quando entrava pela noite dentro com os despojos da tarde, os joelhos soltos, a cor da fruta nas blusas? lembras-te do verão que nunca acabou, do bilhete onde te dava indicações precisas, um mapa onde marcava a colina, a fonte, o estendal, os girassóis a crescer? lembras-te do verão que nunca acabou, do tempo que demoraste a chegar, da minha paciência intacta, da minha sombra confundindo-se no alpendre, com as buganvílias e os gatos antigos? lembras-te do verão que nunca acabou, porque eu continuo à tua espera?

terça-feira, 10 de junho de 2014

ADC:aec / Sticks & Stones




eu e tu, como a primeira e a última sombra, eu e tu, fermentando como uma fabulosa vindima, eu e tu, tempo consertado, sem ponteiros nem luz do sol, a dar conta das pequenas coisas que o coração colecciona, eu e tu, a contornar as pedras e os espinhos, a afastar o silêncio e a saltar as noites.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

ADC:aec / Perfect Lovesong



se me deres o teu amor, eu dou-te o poema perfeito, roubado do melhor poeta, tirado da coroa do imperador, do giradiscos maravilhoso que toca há mil anos. se me deres o teu amor, eu juro que mudo este mundo e ponho de volta tudo o que tirei, devolvo a vida aos animais extintos e estampo as plantas que entretanto secaram, num lenço que dê a volta às coisas tristes, uma coisa que suba, que suba, que suba, e lá do alto nos veja aos dois, com o poema perfeito a dizer onde regressar, se faltar, de repente, a música que lhe põe o ar quente no coração.


ADC:aec / Songs Of Love





o amor entra na poesia como a lua chega ao movimento do mar, obedece a regras simples, põe uma solenidade feliz nas palavras que se acendem, coroa de música o pensamento do coração, caminha de olhos fechados, chega onde quer.

domingo, 8 de junho de 2014

ADC:aec / Something For The Weekend



este domingo precisamos de subir à torre do sino e mesmo que ele já tenha sido roubado e derretido para tapar buracos, havemos de balançar bem alto a alegria de estarmos vivos, a meio da nossa vida, com o segredo para fazermos durar um pouco mais, esta metade que chama por nós.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

ADC:aec / Our mutual friend




não espero que o meu amor morra do teu lado, há muito que aprendi a atar-lhe uma solidão que o liberta de uma das asas, a mesma que havia de te cansar, a mesma que havia de te calar a boca, a mesma que te fizesse as malas. não espero que compreendas o espaço que este amor ocupa, que há séculos no meio do tempo que cabem no fundo de uma caixa. eu sei que não foi para seres minha que um dia me deste um pouco de ti.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ADC:aec / A Lady Of A Certain Age



assim que morreres tudo terá passado velozmente, nenhum sorriso permanecerá, nenhum banquete ficará por digerir. o pior são mesmo os fins de tarde atrasados, os amores maltratados, as cartas por abrir, os pecados escondidos, esses ficam na metade de quem os sentiu, também.

ADC:aec / When The Lights Go Out All Over Europe



ainda temos tempo para ver o mundo acabar, as luzes diminuir na violência do silêncio, uma onda gigante engolindo séculos de destreza, as cidades povoando o fundo do mar. e nós com as mãos para dar uma volta ao nosso destino, e nós como um farol a enganar o peso da noite, e nós como uma música a perder a boca, e nós como a pedra que há-de fechar o buraco, se acabar o amor.

a divina comédia: anotada e comentada, ou seja, ADC:aec / Sunrise



que importa o lado do hemisfério, a superfície ou a profundeza das cidades, o nome que damos às nossas ruas? que importa os mapas e as chaves, os bilhetes inteiros, a poluição dos candeeiros, a vagabundância dos animais sem casa? que importa o lugar, se deixou de haver espaço neste mundo para a nossa casa?

terça-feira, 3 de junho de 2014

sem título, outra vez, ou a chatice da falta de inspiração ou ainda a falta de paciência para adivinhar o que vou escrever a seguir:



a solidão dos montes sozinhos, abandonados pelos filhos que não nasceram, povoa-se de fora para dentro, fechando os caminhos e escondendo os portões, onde outrora o milagre da palavra tinha entrada assegurada.

domingo, 1 de junho de 2014

virar-te na página



virar-te na página é continuar contigo debaixo da minha pele, avançar nesta leitura lenta, que acrescenta personagens e submerge espaços, que enreda silêncios e põe histórias onde devia haver apenas a tua sombra. e segue inventando um umbigo ou um nome de família, para ser mais fácil traduzir a paciência e a inclinação de um amor que resiste sozinho.