quarta-feira, 24 de julho de 2013

# 5



quando sonhas uma casa a primeira coisa que constróis é a porta
por lá hão-de entrar os teus sonhos alados
de asas bem abertas
uma porta com um nome feito de promessas
um doce perfeito
decorado com aquilo que desejas encontrar quando entras em casa
quando sonhas uma casa a casa não são apenas paredes que te protegem
a casa é todo o filme que diriges
os actores que dão vida às cenas mais fabulosas
os finais felizes
sucedendo-se um após o outro
para que dentro de casa não haja tristeza
quando sonhas uma casa sabes que ela vai ali estar para toda a vida
mesmo que a vida seja longa como o crescer das árvores
mesmo que a vida seja um mistério do qual fazemos parte
porque nunca sabemos ao certo para onde vamos mas porque temos uma casa sabemos
ao menos onde estamos onde adormecemos onde amamos onde acordamos
quando sonhas uma casa é lá que guardas a tua música
com todos os instrumentos que experimentaste
mesmo aqueles que avariaram de tantas vezes que os obrigaste a darem-te asas
e quem diz música diz anéis e pulseiras
brincos e outros pendentes que apenas dão brilho ao que já é belo
e quem diz todas estas coisas sabe que tudo o que é precioso
dentro de uma casa
tem um lugar para nos compor os pequenos passos que damos à procura de sermos nós próprios
sem mais nada que às vezes basta termos onde nos aninharmos para sermos felizes
que às vezes basta sabermos que ali podemos escutar o nosso coração
desapressado de todas as coisas que nos cansam. quando sonhas uma casa e sonhas acompanhado
de mão dada de olhar extenso e passo cúmplice já não estás a sonhá-la
estás a tirá-la do papel
estás a erguê-la à tua frente fazendo sombra contra a verão
estás a senti-la como um morango na tua boca
porque é real e estás dentro dela
descansado
no teu sofá
abraçado em frente a este poema



escrito na parede dos meus amores, pedro e susana (e agora Gabriel, também)


quarta-feira, 17 de julho de 2013

# 4





o meu primeiro amor apareceu numa tarde de primavera
descaindo sobre mim com a música reduzida do silêncio
como uma sombra que se quer sem a imperfeição da luz

havia um desenho aguando para dentro das nossas flores
árvores com a admirável indulgência de não nos cobrirem
e crianças descalças agitando as redondas gotas de chuva

havia uma porta aberta que dava para uma casa só nossa
uma casa com a cama feita e janelas atadas à sede do mar
uma casa com livros antigos escutando a nossa presença
e nós de mãos dadas à espera que a porta se consagrasse

e nós tão perfeitos que a eternidade revelou o seu encanto
e assistimos a um poema que nos adormecia tão baixinho

e nós tão perfeitos que deus desistiu de ser dar aos gatos
e a poesia a tapar o fundo do poço e nós a durar a durar

quarta-feira, 3 de julho de 2013