terça-feira, 30 de abril de 2013

# 35



este dia lindo que tu vês, de costas voltadas para a tristeza, fui eu que concebi com artes de costureira. primeiro era apenas uma tira de linho arquivada na última estante do esquecimento, daquelas que não dá nem para a cortina de uma gateira. depois era uma vontade de alinhavar a fertilidade sobre as cores, um voo raso de música, como andorinha chamando papoilas do fundo do silêncio. no fim era isto que nos  cobre de alegria, uma luz que diz para tirarmos a roupa, arrepiarmos o corpo e acreditarmos que é tão fácil costurar o amor.

sábado, 27 de abril de 2013

# 34



creio na ocupação do mundo pelas rosas, disse a poetisa. ela que conhecia bem o peso da bruma, o envelhecer lentíssimo das casas, o inverno que dura desde os ombros do outono aos joelhos da primavera e o coração resistindo, resistindo, resistindo. creio na ocupação do mundo pelas rosas, para haver uma razão e sair à rua, aplaudir a heresia e as asas pesando, de repente, com o fulgor do ouro.

# 33



pedi-te emprestada a tristeza, para nunca mais ta devolver. cortei-a aos pedaços e escondi-a no coração dos figos que irão secar ao sol.

# 32


resumindo e concluindo.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

# 31



agora é a sério, vou mudar de nome. sempre que disseres a palavra água, cairei sobre ti com um mar acontecido.

sábado, 20 de abril de 2013

# 30



perder tempo é entrar numa porta que não dá para lugar nenhum, abri-la e espreitar o que está do outro lado, despejar o resto da música do coração, adiantar ainda mais o processo que esquece, que cansa, que avaria os brinquedos e as alamedas da infância.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

# 29



tanto vale que nos amemos em bogotá ou letícia, na península extrema ou no pico rutilante da noite, estejamos dentro de um gavetão ou no centro de uma canoa, à deriva na rosa dos ventos ou ao lado do milagre aquoso das orquídeas. tudo se resume ao instante demorado do amor, a música pura onde a paz se acende, sem o acidente da tristeza, nem a poluição das feridas.

# 28



um amor perfeito, em partes iguais, desaguando para o mesmo lado, crescendo à mesma hora, com a mesma ideia de paraíso.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

# 27







não me lembro de metade das coisas que vivi

parece que não fui ou que me adiei até agora



olho para as velas no bolo de aniversário

e só penso no tempo que me faz falta



o tempo que foi igualzinho àquele que na tua mão

se gasta a contar conchas na praia



podias ficar a vida toda a contar conchas

que nunca ias perceber quantas há

ou pior

que nem todas as conchas do mundo te fariam um homem rico

se a riqueza afinal vem de percebermos que não vale a pena contar nada



nem moedas nem oliveiras

nem pontes nem sapatos

nem sequer rebuçados grandes ou pequenos



quem sabe algumas nuvens

daquelas que passam depressa (e mesmo assim

nunca poderias contar a chuva

se a houvesse)



que um homem rico é aquele que ainda pode soprar velas

no dia do seu aniversário

(e no soprar velas temos a certeza

do amor ainda ser possível)



olha, não me lembro de metade das coisas que vivi

se calhar passaram precisamente por causa disso

de não as ter vivido



mas não me esqueço que fui pequeno

e que cabia no colo da minha avó e da minha mãe

e da cadela quando se desenrolava no jardim



não me esqueço que trepava às árvores

e voava com os ninhos que metia ao bolso



não me esqueço que dei importância os livros

que antes me cansavam



não me esqueço que tirei do mais fundo de mim

a ideia daquilo que tu és hoje



o meu espelho que se repete

a pensar no tempo

e a soprar comigo estas velas



sem perceber os meus três segundos de silêncio

a pensar que estou a pedir um desejo fabuloso

como um brinquedo cheio de luzes e serpentinas e música



quando os meus três segundos serviram

para este poema dizer que ia aparecer assim de repente

e que tu és afinal o meu maior desejo

# 26



a primavera disse-me que tudo é permitido. falar para dentro das pedras, escrever para dentro das nuvens, sussurrar para dentro das flores, abraçar para dentro do mar, como se tudo fosse fácil, beber da torneira aberta da chuva ou perceber a tua boca enquanto ela repete a redondeza do amor.


dedicado à minha querida companheira de ofício, elvira victorino.


terça-feira, 16 de abril de 2013

# 25



a verdade é que a primavera cabe em qualquer lugar, mesmo no apertado silêncio entre dois livros de poesia, mesmo entre o teu peito e o meu, quando nos abraçamos para dar sorte ao amor. quer venha a andorinha, de tocha na mão, ardendo com a ansiedade das mimosas, quer ela se perca do outro lado do tempo, imune à litania dos gatos.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

sábado, 13 de abril de 2013

# 23



quando deixas de cozer pão em casa, ela esvazia-se de amor e vai caindo para os lados, como uma palavra sem alcateia, um nome de qualquer coisa em extinção, não tarda e o jardim entra pela janela, como um inverno furioso, a porta deixa de caber na chave e tudo se perde, como se no centro da casa houvesse um ralo que dá para o âmago da terra, inclinando para si a mais pesada das lembranças.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

# 22



sempre que demoras a regressar a casa, ela inquieta-se, dobra-se sobre o caminho, espreita como o silêncio pode ser interrompido, um ranger de esquina, os melros levantando das sombras e tudo se encolhendo, como uma mãe aninhando-se sobre os filhotes, protegendo a mais pequena prova, promessa que garantisse a primavera, com alguma chuva e a certeza das frézias, até que a porta não aguente mais o peso dessa míngua e sobre apenas uma palavra, a minutos de se tornar uma ruína.


terça-feira, 9 de abril de 2013

# 21



eu sei que tenho um poema algures, pronto a sair. mas faltas tu, para lhe dar avanço, como se à primavera faltasse apenas um empurrão, para descer sobre as flores e sobre a copa das árvores, como uma cerimónia muito precisa, onde se baptizam as palavras com a doçura do amor.

domingo, 7 de abril de 2013

# 20



e tudo se resume a escrever num retrato, uma data, uma dedicatória, perpetuando-se um amor, perpetuando-se uma existência, anulando o tempo, com o próprio tempo. abril, 1921: ainda não morreram os poetas todos, nem foram escritas todas as palavras.

# 19



nenhuma palavra, nenhum deserto, nenhuma estrela. apenas a respiração, o eco dentro do búzio, a maré descendo e a maré subindo. até ser tempo de morrer, como qualquer outra trepadeira.

sábado, 6 de abril de 2013

# 18



estou cansado de tanta chuva, isto é, de não me conseguir levantar com o peso da roupa ensopada, o ter estado a noite inteira a tapar os buracos desta inundação, tantas formas de ocupares o espaço em branco. não podias ser música? ou então travessa que se inclina e aparece no centro de um poema?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

# 17



trouxe-te para dentro de casa, que é como quem diz, o meu coração desabitado e juntei-te aos livros que me ensinaram a rezar às flores, como catavento reformado a quem se pede que fique quieto.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

# 16



às vezes o amor é uma casa com uma escada interior em vez de varandas a dar para o parque. sobes a vida inteira e acrescentas os andares que são precisos, para perceberes que vale a pena chegar ao fim, ter uma porta e entrar ou então dar com uma janela no sótão e pedir aos deuses que te dêem asas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

# 15



sempre esta hesitação, falar ou guardar as mãos, dizer a cor e o ângulo das palavras ou fechar tudo dentro de uma caixa, como quando se quer semear fora de tempo e é quase certo que a semente adormeça. entretanto decidimos que o tempo se desvia para trás de nós e arrastamos uma montanha de mecanismos de paciência, com os ponteiros atravessados, a magoar a relva e as sebes de alecrim. todavia, para me salvar desta tristeza, penso que tudo isto tem que ser assim: uma espera que aperfeiçoa a arte de amar. invernos que duram o que for preciso, para a primavera valer a pena.