domingo, 31 de março de 2013

# 14



sei que vai demorar muito tempo a reencontrarmos a nossa primavera, choveu demasiado, adormecemos ao volante e batemos em todas as pedras do caminho. mas ela vai chegar, não vai? e depois podemos andar descalços e contar as maravilhas de haver ainda tempo, vai haver, não vai?


sábado, 30 de março de 2013

# 13



sabes à cor
da primavera

quando repito
o teu beijo

calcado na minha
mão

como uma linha
que promete

acordar


sexta-feira, 29 de março de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

# 11




só preciso de um instante
de vez em quando

como daquela manhã
que bastou

para acordarem todas as
tulipas

quarta-feira, 27 de março de 2013

# 10



a minha alergia
preferida

ver-te regressar com os fenos
das mimosas

anunciando o que vou
sofrer

tu
em cada vaso à janela

tu
nos gatos multiplicados

tu na inquieta fermentação
das chuvas

e depois eu
a rezar para que as flores não sequem

e depois eu
a contar as vidas que ainda restam

e depois eu
a estender o corpo ensopado

e no fim
a mesma porção de terra ressequida

e no fim
o mundo sem deuses nem preguiça

e no fim
a alergia pára, o verão começa

(outra memória regressa)




# 9



ando à procura do melhor
dia para regressar

preciso de um instante
demorado

onde tudo seja perfeito
e nada falte à loucura
de van gogh

nem sequer uma mulher
com o atrevimento
do amor

ou uma arma apontada
ao esquecimento




terça-feira, 26 de março de 2013

# 8



amanhã vou subir à macieira
e contar-lhe que é tempo
de acordar

levo-lhe estas pérolas
que ajudei a hibernar
no meu coração

como promessas
que disseste valerem
pela luz da manhã






# 7




o jacarandá com as suas
primaveras trocadas

floresce as vezes que
for preciso

até perceber que a terra
é redonda



segunda-feira, 25 de março de 2013

# 6




da escuridão do silêncio
vem um poema com a
flora do amor

# 5





o óbvio seria apontar as flores
nas pontas das árvores

o azul purificado pelas
chuvas demoradas

os pássaros entrançando
os cabelos da manhã

mas o que me anima
é esta possibilidade
tão mínima

que a soma de todos os
acasos te traga de volta
a casa

repetindo a nossa
primavera


sábado, 23 de março de 2013

# 4



decidi que não podia ficar à espera
da primavera

como as tulipas debaixo dos cobertores
e das ervas daninhas

às vezes podemos abrir a porta
pegar nas nossas pernas
e ir acordar mais à frente

onde somos os primeiros
a perceber

se o dia será feliz
e se valeu a pena guardar
no bolso do coração

o teu nome





sexta-feira, 22 de março de 2013

# 3




onde estás que te espero
há tanto tempo

preciso das tuas
mãos videntes

do teu nome
entrançado

onde estás que me
perco na chuva

como um baloiço
sem infância

como um poema
desancorado

desviando-se da
luz




# 2







o meu amor
entre as árvores
que me escutam

percebe uma forma
de deslocar-se
do meu coração

para o vácuo
delicado da poesia

quinta-feira, 21 de março de 2013

# 1




a primavera começa
quando perdes a conta
aos dias tristes
do silêncio

a casa abrindo as oliveiras 
enquanto sacode os livros cansados
do canto das sombras

as candeias do avesso
arejando como peças de seda
ao fim de tanto caminho

e depois um pássaro
riscando no ar
uma palavra que podia
ser nome

de flor


domingo, 17 de março de 2013

ROTEIRO DA ÚLTIMA PRIMAVERA



Aproxima-se o equinócio da primavera e, ao mesmo tempo, o dia mundial da poesia. Anuncio, assim, um projecto de escrita que durará 90 dias. Nada mais simples: um poema por dia, reservando-se o direito de a minha querida musa entrar em greve (trato-a bem, mas não podemos garantir nada)... Começo pelo título: ROTEIRO DA ÚLTIMA PRIMAVERA. Espero que gostem da ideia!

Abraço, daniel.