domingo, 20 de janeiro de 2013

interrupção na interrupção para homenagear o poeta





os amantes sem dinheiro têm prioridade quando se abre o sol da tarde, quando as primeiras rosas decidem coroar o silêncio e a lua acorda o íntimo lótus que purifica a tristeza. os amantes sem dinheiro têm os mesmos sonhos que deus faz escorrer sobre o mundo, encharcando as cidades onde é possível flutuar com a mais leve das promessas, com o mais transparente dos abraços. os amantes sem dinheiro têm um poço absoluto onde todos os outros têm um coração, para ir buscar as moedas de ouro, com que se paga a felicidade aos pássaros e mais um dia à eternidade.


parabéns EA

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

suspended animation II





a bainha dos dias vai suspender-se, outra vez. a boa razão depreende-se pela imagem, vamos ver se dia 21 de março, regressa, sorridente.


entretanto, há 7 anos de blogue, 405 posts que ficam, temporariamente disponíveis, outra vez, aqui:


http://afectosepalavras.blogspot.pt



boa viagem.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

o instante demorado



quando saíste de casa foi como perder a propriedade da visão que permite ver além do tempo, espreitar o horizonte, encaixar a chave na porta certa. foi como reclinar a cabeça e formatar a tristeza para ver apenas o que bate na cara, a tua sombra com as tuas mãos, o instante das coisas acabadas de criar. foi como ter de viver com um chão tão pequeno que um passo é um desequilíbrio eterno, um copo vazando constantemente a fonte e tu com tanta sede. foi como teres-me cegado para a imaginação das coisas por vir. no entanto, nesta míngua de mundo, nesta carestia de música, ainda há beleza: de vez em quando cabe a boca iluminada de um gerânio e um poema abre a sua janela interior, as palavras demoram, o amor estica os braços, espreguiça o coração.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

laudes



eras capaz de acordar antes da manhã, despertares, como dizer, com a noite transferida ainda dentro de ti, para veres o meu corpo levantar-se com toda a sua música, ficares a contar as árvores que espanto, as cores que recolho do primeiro silêncio, o fogo que sai delas, delicado e doce como todo o instante do amor?

domingo, 6 de janeiro de 2013

uma razão



tem que haver uma razão para ter errado tantas vezes o nome do amor, quem diz o nome diz o tamanho do vestido, o açúcar das romãs, o cancioneiro do desejo. tem que haver uma explicação, uma palavra acordada dentro das minhas mãos, como a chuva deste dia contrariando a vontade do coração, sair correndo à tua procura, afogando a tristeza, até à ponta do silêncio.




sábado, 5 de janeiro de 2013

ensaio sobre a teoria do amor*



o caminho do amor é difícil. experimenta levantar a tua casa, carregada com uma vida de livros por ler, pesados por terem as asas fechadas. experimenta levá-la às costas enquanto sobes a memória de um rosto feliz, degrau a degrau, com a confusão de teres o coração a falar tão alto que nem ouves os teus passos, com o abismo do silêncio, quando tens de esperar tanto tempo que esqueces a razão por que tens um peso tão grande sobre ti, enterrando-te, aos poucos, como uma figueira que vai descendendo, apagando-se, quando já deu de beber a todos os pássaros do mundo. o caminho do amor é difícil. é o único verso que importa, se a tua teoria assenta na equação invariável de perderes, todas as horas, um pormenor daquilo que foi o dia mais feliz da tua vida: havia uma noite que apressava, um beijo que continha, uma promessa que ardia.



*durou os 8'54'' da versão ao vivo do tema Exit, por Brad Mehldau Trio (The Art of the Trio Volume 3).


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

o farol



um farol é um poema que tens no teu coração rodando sobre as calhas do amor, um poema transparente, com um longo cachecol de luz, interrompendo a agudeza da noite. chama as palavras e a música, que vêm como ondas muito delicadas, ondas doces de flor de laranjeira, esvoaçando como se fossem garajaus, rosados pela boca ansiosa do silêncio. e depois a espera alumia-se, numa cintilação que é feita de portões abertos e ilhas perfeitas. falta apenas o teu barco, ou o teu nome, ou uma garrafa com o teu barco com o nome lá dentro, derivando, tranquilamente, como se o destinatário fosse certo e o remetente eterno.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

ensaio sobre o futuro



Parece tudo incerto, cheio de caminhos que se interrompem uns por cima dos outros, como vagas de dois mares dando à mesma costa. A erosão do horizonte diluindo-se com a manhã sobreposta, palavras e vértebras de música que não se adaptam à violência do silêncio. No entanto uma ponte promete levantar o frio, com macieiras do tamanho de eucaliptos, constantemente em flor, fotografia perpétua de um sonho. Escuto o coração, um nome regressa para me abrir a casa, recomeço tudo de novo.