sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

# primeiro parágrafo de um conto a haver sobre o sofrimento



O sofrimento limita-te a luz, ficas pequenina à espera que tudo passe, mesmo a arca onde foste guardando as sementes das romãs e os lenços bordados, segredos para revelar um dia. Mas essa luz basta para que encontres um caminho para algum lado, onde dizem que o arco-íris guarda um pote com geleia. E tudo fica mais doce, outra vez.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

# primeiro parágrafo de um conto de natal a haver



Então tu pedes para os outros e o Natal sai veloz das tuas mãos, a escorregar-se de doces em cada um dos teus amigos, incluídos os livros de cabeceira, as árvores que vão dando cor ao teu inverno, as nuvens indecisas, como renas sem pai natal, livres, portanto. Então tu decides que o amor é uma conta simples de fazer: subtrais a tua sombra e o mundo todo acorda, feliz. Somas, assim, todos os desejos dos outros. Um outro que baste, como tu, retribui-te a maravilha. E tudo parece melhor.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ensaio sobre o mau tempo (sem canal)



Olha, a ilha hoje acordou do lado de dentro das nuvens. Deita fora o excesso da água que pesa no coração do céu. Nem sempre é assim, que o azul é uma cor que sobrevive a todas as estações. Mas hoje não. O mar lava-se nos cabelos da terra, está turvo como, afinal, toda a distância que carrega às costas. E nós, os viventes e os sobreviventes, ficamos apenas à espera, que a ilha nos dê um sinal, uma aberta, uma página seca, para começarmos o dia.

Olha, amanhã a ilha está perdoada. Afinal, é linda mesmo quando te fecha em casa e te obriga a colher saudades.

domingo, 22 de setembro de 2013

almada:



uma luz que é líquida e emerge
das janelas felizes
batendo contra a promessa
do abraço da água

uma praça contínua
como rua que desce
para o coração ficar
disponível

um lugar que põe
as nuvens a navegar
de novo

e sobe sobe
até tudo ser um sonho
possível


terça-feira, 3 de setembro de 2013

memorial a mário botas




a morte é uma flor

crescendo ao contrário



subiu do coração

num mundo do avesso



o pássaro do amor

iluminando o poemário



como o sol na ilustração

de um beijo espesso



a casa partiu jovem

no meio da escuridão



a palavra prometida

no vazio da parede



é agora um homem

na rosa da solidão



uma memória ferida

baloiçando sem rede



a morte é uma flor

confirmando o coração



enquanto houver fome

e durar a tempestade



enquanto o pincel da cor

distorcer-se da ilusão



haverá luz sobre o teu nome

e vida na eternidade


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #4



Preparei uma lista das coisas que me separam de ti. São sobretudo palavras, umas oblíquas, outras transparentes, quase todas numa língua imprópria para um coração fraco.


domingo, 18 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #3



Colher pedras, arrumá-las no bolso, levá-las para casa. É exactamente o contrário de esquecer. Arranjar lastro para a memória perdurar, o peso das tardes que valeram a pena. Um dia a casa vai inclinar-se com tanta coisa, ou então o meu coração pára.

sábado, 17 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #2



A casa não me chega para o ar que preciso de inclinar para dentro da minha desarrumação. As janelas parecem seres minúsculos que cintilam alguma luz quando os eclipses se alinham, as estantes estão inclinadas, caem livros e pedras do acaso. Aprendo a falar o silêncio, arranjei um amigo. Ele diz que me vai dar a mão, como um bombeiro quando tira da água o corpo esquecido da criança.


(...)

domingo, 11 de agosto de 2013

primeiro parágrafo de contos a haver #1



Voltei a casa para arrumar as coisas importantes. Alguns livros que escondem bilhetes de comboio, certificados de aforro do coração, desenhos de crianças que já não crescem mais. A caixa que trouxe debaixo do braço não chega para conter o pó que se levantou da memória. Vou ter de escolher bem o que vale a pena levar comigo. O milho rei do verão, preciosas cortinas sobre uma alegria afundada.

(...)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

# 5



quando sonhas uma casa a primeira coisa que constróis é a porta
por lá hão-de entrar os teus sonhos alados
de asas bem abertas
uma porta com um nome feito de promessas
um doce perfeito
decorado com aquilo que desejas encontrar quando entras em casa
quando sonhas uma casa a casa não são apenas paredes que te protegem
a casa é todo o filme que diriges
os actores que dão vida às cenas mais fabulosas
os finais felizes
sucedendo-se um após o outro
para que dentro de casa não haja tristeza
quando sonhas uma casa sabes que ela vai ali estar para toda a vida
mesmo que a vida seja longa como o crescer das árvores
mesmo que a vida seja um mistério do qual fazemos parte
porque nunca sabemos ao certo para onde vamos mas porque temos uma casa sabemos
ao menos onde estamos onde adormecemos onde amamos onde acordamos
quando sonhas uma casa é lá que guardas a tua música
com todos os instrumentos que experimentaste
mesmo aqueles que avariaram de tantas vezes que os obrigaste a darem-te asas
e quem diz música diz anéis e pulseiras
brincos e outros pendentes que apenas dão brilho ao que já é belo
e quem diz todas estas coisas sabe que tudo o que é precioso
dentro de uma casa
tem um lugar para nos compor os pequenos passos que damos à procura de sermos nós próprios
sem mais nada que às vezes basta termos onde nos aninharmos para sermos felizes
que às vezes basta sabermos que ali podemos escutar o nosso coração
desapressado de todas as coisas que nos cansam. quando sonhas uma casa e sonhas acompanhado
de mão dada de olhar extenso e passo cúmplice já não estás a sonhá-la
estás a tirá-la do papel
estás a erguê-la à tua frente fazendo sombra contra a verão
estás a senti-la como um morango na tua boca
porque é real e estás dentro dela
descansado
no teu sofá
abraçado em frente a este poema



escrito na parede dos meus amores, pedro e susana (e agora Gabriel, também)


quarta-feira, 17 de julho de 2013

# 4





o meu primeiro amor apareceu numa tarde de primavera
descaindo sobre mim com a música reduzida do silêncio
como uma sombra que se quer sem a imperfeição da luz

havia um desenho aguando para dentro das nossas flores
árvores com a admirável indulgência de não nos cobrirem
e crianças descalças agitando as redondas gotas de chuva

havia uma porta aberta que dava para uma casa só nossa
uma casa com a cama feita e janelas atadas à sede do mar
uma casa com livros antigos escutando a nossa presença
e nós de mãos dadas à espera que a porta se consagrasse

e nós tão perfeitos que a eternidade revelou o seu encanto
e assistimos a um poema que nos adormecia tão baixinho

e nós tão perfeitos que deus desistiu de ser dar aos gatos
e a poesia a tapar o fundo do poço e nós a durar a durar

quarta-feira, 3 de julho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

# 2



atira um saco de berlindes ao ar
e logo verás que o verão
não tarda a aquecer-te as mãos

sexta-feira, 21 de junho de 2013

# 1 do verão



não importa se chove
se morre o girassol
se desbotam as blusas
no estendal

o verão chega a tua
casa

pela porta grande
da alegria


domingo, 16 de junho de 2013

interrupção involuntária da primavera




A primavera está a dias de acabar... tinha prometido um poema por cada dia de primavera, cheguei aos 56... tendo em conta que foram mais os dias de inverno que os de primavera... talvez o saldo esteja a meu favor...

Vou interromper por uns tempos a bainha, para ela respirar e, quem sabe, coser-se com outras linhas. Mas o outono vai chegar depressa, prometo! E mais forte e condensado que nunca!

Beijinhos e um obrigado especial para todos os que foram incentivando este roteiro para a primavera de 2013.

sábado, 18 de maio de 2013

# 39



às vezes a espera é insuportável, apercebemo-nos da erosão que vai acabar por levar a porta de frente, as telhas de cima, os tapetes de baixo, os sonhos de trás. às vezes a espera é insuportável, os caminhos do mundo que vão dar ao contrário do amor e os mapas que escondem, desenhados a tinta de limão e as tuas mãos, às tantas dissolvidas no teu rosto, precárias como o tempo, quando se aproxima a hora prometida.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

# 38



se não houver música, a beleza do mundo resume-se a um amontoado de poesia que bloqueia a aparição de deus.

sábado, 11 de maio de 2013

# 37



o caminho do amor é estreito, vai dar à garganta escarpada do silêncio sempre que te pões à espera. e és tu quem tem de compor a liana compridíssima com que te lanças para o lado da promessa. e és tu quem tem de colar as asas na boca empurrando para a frente o coração. e és tu quem sabe disto, no precipício que se avizinha, cada vez que a apólice ameaça caducar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

# 36



quando soletras o teu sonho, fazes acontecer um porta moedas, um contentor de rosas, uma razão para usares a alegria a tiracolo. costuras três ou quatro palavras com o sentido de uma filosofia inteira e se as repetes com o cuidado de quem fotografa uma noiva, tens a certeza que irão durar, caber num bolso, num colo, no coração.

terça-feira, 30 de abril de 2013

# 35



este dia lindo que tu vês, de costas voltadas para a tristeza, fui eu que concebi com artes de costureira. primeiro era apenas uma tira de linho arquivada na última estante do esquecimento, daquelas que não dá nem para a cortina de uma gateira. depois era uma vontade de alinhavar a fertilidade sobre as cores, um voo raso de música, como andorinha chamando papoilas do fundo do silêncio. no fim era isto que nos  cobre de alegria, uma luz que diz para tirarmos a roupa, arrepiarmos o corpo e acreditarmos que é tão fácil costurar o amor.

sábado, 27 de abril de 2013

# 34



creio na ocupação do mundo pelas rosas, disse a poetisa. ela que conhecia bem o peso da bruma, o envelhecer lentíssimo das casas, o inverno que dura desde os ombros do outono aos joelhos da primavera e o coração resistindo, resistindo, resistindo. creio na ocupação do mundo pelas rosas, para haver uma razão e sair à rua, aplaudir a heresia e as asas pesando, de repente, com o fulgor do ouro.

# 33



pedi-te emprestada a tristeza, para nunca mais ta devolver. cortei-a aos pedaços e escondi-a no coração dos figos que irão secar ao sol.

# 32


resumindo e concluindo.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

# 31



agora é a sério, vou mudar de nome. sempre que disseres a palavra água, cairei sobre ti com um mar acontecido.

sábado, 20 de abril de 2013

# 30



perder tempo é entrar numa porta que não dá para lugar nenhum, abri-la e espreitar o que está do outro lado, despejar o resto da música do coração, adiantar ainda mais o processo que esquece, que cansa, que avaria os brinquedos e as alamedas da infância.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

# 29



tanto vale que nos amemos em bogotá ou letícia, na península extrema ou no pico rutilante da noite, estejamos dentro de um gavetão ou no centro de uma canoa, à deriva na rosa dos ventos ou ao lado do milagre aquoso das orquídeas. tudo se resume ao instante demorado do amor, a música pura onde a paz se acende, sem o acidente da tristeza, nem a poluição das feridas.

# 28



um amor perfeito, em partes iguais, desaguando para o mesmo lado, crescendo à mesma hora, com a mesma ideia de paraíso.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

# 27







não me lembro de metade das coisas que vivi

parece que não fui ou que me adiei até agora



olho para as velas no bolo de aniversário

e só penso no tempo que me faz falta



o tempo que foi igualzinho àquele que na tua mão

se gasta a contar conchas na praia



podias ficar a vida toda a contar conchas

que nunca ias perceber quantas há

ou pior

que nem todas as conchas do mundo te fariam um homem rico

se a riqueza afinal vem de percebermos que não vale a pena contar nada



nem moedas nem oliveiras

nem pontes nem sapatos

nem sequer rebuçados grandes ou pequenos



quem sabe algumas nuvens

daquelas que passam depressa (e mesmo assim

nunca poderias contar a chuva

se a houvesse)



que um homem rico é aquele que ainda pode soprar velas

no dia do seu aniversário

(e no soprar velas temos a certeza

do amor ainda ser possível)



olha, não me lembro de metade das coisas que vivi

se calhar passaram precisamente por causa disso

de não as ter vivido



mas não me esqueço que fui pequeno

e que cabia no colo da minha avó e da minha mãe

e da cadela quando se desenrolava no jardim



não me esqueço que trepava às árvores

e voava com os ninhos que metia ao bolso



não me esqueço que dei importância os livros

que antes me cansavam



não me esqueço que tirei do mais fundo de mim

a ideia daquilo que tu és hoje



o meu espelho que se repete

a pensar no tempo

e a soprar comigo estas velas



sem perceber os meus três segundos de silêncio

a pensar que estou a pedir um desejo fabuloso

como um brinquedo cheio de luzes e serpentinas e música



quando os meus três segundos serviram

para este poema dizer que ia aparecer assim de repente

e que tu és afinal o meu maior desejo

# 26



a primavera disse-me que tudo é permitido. falar para dentro das pedras, escrever para dentro das nuvens, sussurrar para dentro das flores, abraçar para dentro do mar, como se tudo fosse fácil, beber da torneira aberta da chuva ou perceber a tua boca enquanto ela repete a redondeza do amor.


dedicado à minha querida companheira de ofício, elvira victorino.


terça-feira, 16 de abril de 2013

# 25



a verdade é que a primavera cabe em qualquer lugar, mesmo no apertado silêncio entre dois livros de poesia, mesmo entre o teu peito e o meu, quando nos abraçamos para dar sorte ao amor. quer venha a andorinha, de tocha na mão, ardendo com a ansiedade das mimosas, quer ela se perca do outro lado do tempo, imune à litania dos gatos.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

sábado, 13 de abril de 2013

# 23



quando deixas de cozer pão em casa, ela esvazia-se de amor e vai caindo para os lados, como uma palavra sem alcateia, um nome de qualquer coisa em extinção, não tarda e o jardim entra pela janela, como um inverno furioso, a porta deixa de caber na chave e tudo se perde, como se no centro da casa houvesse um ralo que dá para o âmago da terra, inclinando para si a mais pesada das lembranças.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

# 22



sempre que demoras a regressar a casa, ela inquieta-se, dobra-se sobre o caminho, espreita como o silêncio pode ser interrompido, um ranger de esquina, os melros levantando das sombras e tudo se encolhendo, como uma mãe aninhando-se sobre os filhotes, protegendo a mais pequena prova, promessa que garantisse a primavera, com alguma chuva e a certeza das frézias, até que a porta não aguente mais o peso dessa míngua e sobre apenas uma palavra, a minutos de se tornar uma ruína.


terça-feira, 9 de abril de 2013

# 21



eu sei que tenho um poema algures, pronto a sair. mas faltas tu, para lhe dar avanço, como se à primavera faltasse apenas um empurrão, para descer sobre as flores e sobre a copa das árvores, como uma cerimónia muito precisa, onde se baptizam as palavras com a doçura do amor.

domingo, 7 de abril de 2013

# 20



e tudo se resume a escrever num retrato, uma data, uma dedicatória, perpetuando-se um amor, perpetuando-se uma existência, anulando o tempo, com o próprio tempo. abril, 1921: ainda não morreram os poetas todos, nem foram escritas todas as palavras.

# 19



nenhuma palavra, nenhum deserto, nenhuma estrela. apenas a respiração, o eco dentro do búzio, a maré descendo e a maré subindo. até ser tempo de morrer, como qualquer outra trepadeira.

sábado, 6 de abril de 2013

# 18



estou cansado de tanta chuva, isto é, de não me conseguir levantar com o peso da roupa ensopada, o ter estado a noite inteira a tapar os buracos desta inundação, tantas formas de ocupares o espaço em branco. não podias ser música? ou então travessa que se inclina e aparece no centro de um poema?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

# 17



trouxe-te para dentro de casa, que é como quem diz, o meu coração desabitado e juntei-te aos livros que me ensinaram a rezar às flores, como catavento reformado a quem se pede que fique quieto.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

# 16



às vezes o amor é uma casa com uma escada interior em vez de varandas a dar para o parque. sobes a vida inteira e acrescentas os andares que são precisos, para perceberes que vale a pena chegar ao fim, ter uma porta e entrar ou então dar com uma janela no sótão e pedir aos deuses que te dêem asas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

# 15



sempre esta hesitação, falar ou guardar as mãos, dizer a cor e o ângulo das palavras ou fechar tudo dentro de uma caixa, como quando se quer semear fora de tempo e é quase certo que a semente adormeça. entretanto decidimos que o tempo se desvia para trás de nós e arrastamos uma montanha de mecanismos de paciência, com os ponteiros atravessados, a magoar a relva e as sebes de alecrim. todavia, para me salvar desta tristeza, penso que tudo isto tem que ser assim: uma espera que aperfeiçoa a arte de amar. invernos que duram o que for preciso, para a primavera valer a pena.



domingo, 31 de março de 2013

# 14



sei que vai demorar muito tempo a reencontrarmos a nossa primavera, choveu demasiado, adormecemos ao volante e batemos em todas as pedras do caminho. mas ela vai chegar, não vai? e depois podemos andar descalços e contar as maravilhas de haver ainda tempo, vai haver, não vai?


sábado, 30 de março de 2013

# 13



sabes à cor
da primavera

quando repito
o teu beijo

calcado na minha
mão

como uma linha
que promete

acordar


sexta-feira, 29 de março de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

# 11




só preciso de um instante
de vez em quando

como daquela manhã
que bastou

para acordarem todas as
tulipas

quarta-feira, 27 de março de 2013

# 10



a minha alergia
preferida

ver-te regressar com os fenos
das mimosas

anunciando o que vou
sofrer

tu
em cada vaso à janela

tu
nos gatos multiplicados

tu na inquieta fermentação
das chuvas

e depois eu
a rezar para que as flores não sequem

e depois eu
a contar as vidas que ainda restam

e depois eu
a estender o corpo ensopado

e no fim
a mesma porção de terra ressequida

e no fim
o mundo sem deuses nem preguiça

e no fim
a alergia pára, o verão começa

(outra memória regressa)




# 9



ando à procura do melhor
dia para regressar

preciso de um instante
demorado

onde tudo seja perfeito
e nada falte à loucura
de van gogh

nem sequer uma mulher
com o atrevimento
do amor

ou uma arma apontada
ao esquecimento




terça-feira, 26 de março de 2013

# 8



amanhã vou subir à macieira
e contar-lhe que é tempo
de acordar

levo-lhe estas pérolas
que ajudei a hibernar
no meu coração

como promessas
que disseste valerem
pela luz da manhã






# 7




o jacarandá com as suas
primaveras trocadas

floresce as vezes que
for preciso

até perceber que a terra
é redonda



segunda-feira, 25 de março de 2013

# 6




da escuridão do silêncio
vem um poema com a
flora do amor

# 5





o óbvio seria apontar as flores
nas pontas das árvores

o azul purificado pelas
chuvas demoradas

os pássaros entrançando
os cabelos da manhã

mas o que me anima
é esta possibilidade
tão mínima

que a soma de todos os
acasos te traga de volta
a casa

repetindo a nossa
primavera