quarta-feira, 31 de outubro de 2012



os pintores podem fazer
coisas extraordinárias
apenas com o que sobra
no silêncio de uma casa

uma mãe dormindo
com a ascenção do outono
demorando a inutilidade
dos gatos

uma jarra de girassóis
secando para dentro da
eternidade

como uma luz de verão
que se fecha no coração
de uma lâmpada

e depois é tudo poesia
à espera de secar







a tua alma é um estendal
que vem à rua
quando o sol deixa

ou quando arriscas
abrir a boca
contra o silêncio

ou quando parece
que o teu vizinho
toma a mesma palavra

e diz o que sente
e o que sonha
e o que é



segunda-feira, 29 de outubro de 2012




decidi que não havia
mais chuva:

desgravei o teu nome
do meu coração

como um eucalipto
apressado

a tua música elevou-se
contendo a tristeza
do aluvião

domingo, 28 de outubro de 2012



mesmo no outono
é possível encontrar
um coração aceso

nem toda a boca
se cala

nem todo o amor
se adia


tu és uma árvore
deitada no seu verão

percorro-te
como uma borboleta
sem asas

e chego à copa dos teus
olhos

onde o sol
não me queima




(clara, se leres isto, acredita, foi feito em 10 segundos)


sempre que pouso o teu nome
levito

ergo-me depois do fulgor
das nuvens

e desapareço

sexta-feira, 26 de outubro de 2012




pegas na paisagem
e elides tudo
excepto duas árvores

numa mostras como
o inverno é deus
à espera

noutra provas como
o amor te faz falta

quinta-feira, 25 de outubro de 2012



todos os dias há uma corda
que me levanta

e me guia ao pé das coisas
que devo saber de cor

o meu coração desliza
tão baixinho
que já nem pisa
a memória da chuva

é uma folha caindo da mesa
confundindo o poema
atrasando os violinos

e o silêncio tão pesado
como uma casa feita
dentro de um poço



teoria geral do amor



o amor é uma promessa
que não se cumpre

o amor é uma promessa
comprida





quarta-feira, 24 de outubro de 2012



o artista pôs o seu retrato
à mercê do espelho
da alma

não encontrou um pássaro
de fogo

nem sequer uma hera
trepando pelo silêncio

viu apenas a cabeça
tombada

a música hesitando
entre ser compasso
de espera

ou intervalo de
sonho

arte poética



primeiro tens um acordar súbito
mesmo com os olhos fechados
uma música abre o teu coração

vais à procura de uma janela
e encontras um espaço
aberto sobre uma varanda

o teu corpo estremece
e sabes que o amor está próximo
como uma vela deslizando
com a tua mão
através da noite

depois deixas as palavras
retomar o seu lugar preferido
à beira da boca
que respira rente ao silêncio

e tudo pesando apenas o necessário
para não se cair
para não se evaporar
para não se escurecer

às vezes tens tempo de ressuscitar
e ver o lado de lá desse mundo
que criaste

às vezes o poema pertence-te
por uns segundos

e és feliz

terça-feira, 23 de outubro de 2012







percebes o que a pintura
te quer dizer?

o poema que a atravessa
na sua cor inviolável?

a música imprevisível
como chuva miudinha
por detrás das formas?

e da mão do sonho
na loucura instantânea
do artista?

percebes esse rumor
ou estás à espera
de fechar os olhos?


sábado, 20 de outubro de 2012


Daniel Gonçalves (1975-2012)

se morreres é muito simples
põem o ano em que nasces
ao lado do ano em que desaconteces

perguntarão aos teus amigos
o que fazer ao espaço
que deixaste vago

ou que poema terá sido maior
se importa agora um gato dormindo
a sua tarde

mas não saberão dos gerânios transplantados
os cuidados precisos para os guiar no inverno
nem do livro deixado no início
nem do disco por ouvir

a promessa que devia ter chegado ao fim
a remissão dos pecados leves
a arquelogia pendente de todos os outros

não saberão da tristeza escondida
a repetida música que sempre dizia

tudo acaba sem começar




amei-te um dia
três minutos
que desviaram
a eternidade

tudo o resto
é uma longa
viagem

na deriva morna
que nos adormece
e esquece

quarta-feira, 17 de outubro de 2012




fiz-te um vestido
com a música
que a chuva inclinava

tirei-te as medidas
do mesmo bolso
onde o coração te esperava

subi-te a bainha
à medida exacta
com que te sonhava

mandei-te o vestido
na roda perfeita
de um poema musicado

esperei que o vestisses
descendo sobre o corpo
como um beijo recitado

e na volta mandasses
a certeza colorida
de um verão acordado




terça-feira, 16 de outubro de 2012



egon schiele não teve tempo
de chorar a morte de gustav klimt

e eu com todo o tempo de
chorar a morte deles






saí de casa para ir ter contigo
estou há mil anos
sem te encontrar

entrei em todas as noites
e a todas as constelações
te fui chamar

subi todos os mares
e em todas as praias
te quis achar

e se mais árvores houvesse
mais pássaros tinha trazido
para me ajudar






a minha casa é
tranquila

como a minha
gata

esperando
a aranha

e o seu pêndulo
invisível

a minha casa é
transparente

como a minha
aranha

fitando
a gata

e a sua sonolência
evidente




o outono
à volta do meu
cansaço

pássaro naufragado
na sonolência
das folhas

música lentíssima
como água
sem tempo

o outono
subindo pelo
meu silêncio

dióspiro magnífico
caindo no centro
da boca



segunda-feira, 15 de outubro de 2012



amei duas mil mulheres
cada vez que sai
à rua

foi da loucura
de seres a única
que nunca esqueço

domingo, 14 de outubro de 2012




és a árvore
que encomenda o coração
ao céu da manhã

baloiçando com a luz
incendeias as asas
das coisas pequenas

haver uma nuvem
para cada sonho

haver um pássaro
para cada poema

estarmos à espera
que chova

espreitando o nosso amor
enquanto assenta
nas poças do caminho




quarta-feira, 3 de outubro de 2012



desapaixonei-me
quer dizer
arranquei as pétalas
desta rosa

fiquei sem poema
quer dizer
os espinhos inventaram
a solidão

esqueci o teu nome
quer dizer
perdi o perfume
da eternidade








juro que não sou o mesmo
mesmo quando o espelho
virado na volta do avesso
me nega que estou velho


(TO BE CONTINUED)

terça-feira, 2 de outubro de 2012




não quero saber do fim
que se aproxima

do tempo que se esgota
e nos passa por cima

do dia que acaba
e nunca mais recomeça

da noite que vem sempre
e nos atravessa

não quero saber do incêndio
que se repete

do silêncio que se levanta
e nos derrete

da ruína que chega por trás
e nos surpreende

do deserto que se alastra
e nos apreende

só quero saber do teu nome
no meu coração

do amor e das promessas
gravadas na nossa mão