quarta-feira, 1 de junho de 2011

JÁ NÃO TARDA MUITO




Não tarda muito e vou morrer sem ter desfeito o sal de todas as mágoas. Antes de adormecer ou mesmo no instante em que adormeço sei que me faltou qualquer coisa. Uma música batendo com força no mecanismo febril do meu cansaço. Uma música triste, pequenina, azeda como um doce passado. Por isso  sinto que passo a noite a encharcar os meus lençóis com um choro convulso que não acorda ninguém. Um choro transparente que me escorre pelo corpo como suor brando. Não era para acordar ninguém que estas coisas sofrem-se sozinhas. Como um luto inseminado artificialmente. Varetas de lume exausto que entram pelos meus olhos adentro.
Já não tarda muito e morri. Não dancei o que tinha a dançar porque nunca soube fazê-lo à tua frente. Tu sabias dançar. Notava-se pelas tuas mãos soltando e velando o vestido imóvel. Tenho pena de o tempo se estar a acabar. Acabou.

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