domingo, 26 de junho de 2011

A NOITE





A noite estava para vir no teu regaço. Contente de regressar ao ventre imaculado do amor. Mas tu atrasaste-te, demoraste tanto tempo a escrever o meu nome. Agora a noite chegou sozinha. Fria. Alta demais para lhe tocarmos.

A CHUVA SOBRE O VERÃO





A chuva sobre o verão cai como uma cidade se arrastando contra o mar, querendo vencer o tamanho das ondas quando elas vêm com o grito antigo que nega o silêncio. E por isso dói como amor descorrespondido, como amor calado, como amor ao contrário na flor exausta da espera. A chuva sobre o verão é o teu rosto feito num rosário de tristeza, que ninguém reza, que ninguém apanha do chão, mesmo que ilumine o charco da estrada, como aquelas estrelas que parecem cair do céu, resplandecendo num mínimo instante a nossa desatenção.

terça-feira, 14 de junho de 2011

SEGUE EM FRENTE




Segue em frente. Tens uma palavra nova para aprender, quando chegar a noite, quando chegares até ela e ela te abraçar, lentamente, como uma estrela avisando-se ao longe.

QUIETO




Quieto como se alguém me estivesse a contar um poema. Para não perder a música, as asas desse lugar fabuloso. O mundo compondo-se, perfeito, através de uma janela quebrada.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ACORDEI CONTIGO




Acordei contigo atravessado no meu silêncio. Voei contigo durante toda a noite e durante toda a noite foste mudando de pessoa. Mudando de pessoa foste mudando de cidade, de templo, de árvore. Mudando assim tanto mudei-me também: de tristeza para alegria, de alegria para consternação, de consternação para cansaço.

domingo, 12 de junho de 2011

POEMA COM PAUL MCCARTNEY




Eu posso esperar mais um dia. Não morro esta noite. Olho a cidade tomando um chá que dava para nós os dois. Posso esperar mais um dia, mas não é este o propósito de estar cantando. Deste lado, sabes bem, há um corpo que te quer levar a dançar. Uma música que é a asa cantante que nos faz esquecer que morremos. Eu posso esperar mais um dia, mas a morte não.

ACORDAR CEDO




Acordar cedo para não perder o regresso do pássaro de fogo. Sair à rua com a certeza da casa onde queremos ir. O cão pela trela, feliz. Ambos sabemos a que sabe o amor: é uma meticulosa essência de silêncio que se deve levar a passear.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

ESTOU DO AVESSO




Estou do avesso, não porque este mundo está ao contrário, não porque deixei de existir por fora, mas porque agora quem me representa é a minha enorme tristeza. Esta tristeza fez-se, há muito tempo atrás, de tiras sobrepostas como numa manta antiga, feita de retalhos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ESTOU SOZINHO




Estou sozinho, tão sozinho que esqueci o meu nome. Ninguém mo pergunta mais. Aliás, a única palavra que vou repetindo é o teu nome, mas tu, como eu, estás sozinha, também, desse teu lado de onde me mandaste embora.
Estou sozinho, tão sozinho que deixei de ter vontade de ser feliz. Vou durando como um fósforo que caiu na ranhura do soalho. E só um incêndio nesta casa me há-de iluminar por dentro. Para tudo se acabar de vez.

domingo, 5 de junho de 2011

TU ÉS QUEM AMAS





Tu és quem amas. Se proteges o vento o teu corpo esvoaça pela janela. Se beijas o mar o teu cabelo desfaz-se em mil pérolas de espuma. Se acaricias o sol o teu coração ilumina a noite. Se dás de beber a um gato a tua voz acorda os gerânios nos desertos. Se pensas em mim eu sei que volto a nascer.


COMPREENDO BEM




Compreendo bem que tenha de morrer um dia. Quando me puxaram do sonho a luz que me acordava era essa. O que me custa é não viver cinquenta anos no mesmo dia perfeito.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

ANTES DE ADORMECER




Antes de adormecer vou ter a certeza que estou sozinho em casa. Tenho tido a impressão que as paredes se inclinam sob a luz triste do silêncio, que alguém as dobra sobre mim, que alguém apequena esta casa para que eu não me sinta tão disperso, tão sozinho, tão dolente.


À ESPERA





À espera que chegue o tempo certo de regressar a casa. Em pé como às árvores ansiando pela primavera, para ver o comboio chegar, carregado de giestas e do perfume da terra morlhada. À espera que alguém repare nas minhas mãos vazias e me empreste um livro, outra mão como a minha e depois possamos ler juntos o resto da viagem, com o coração à janela e a tristeza à coxia.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

UM DIA




Um dia regressas a casa e a primeira coisa que eu vou fazer vai ser sentar-te a um canto e adormecer olhando para ti. Quem diz adormecer diz registar as orlas magníficas, as pérolas que te inundam o silêncio. Um dia regressas a casa e eu posso finalmente fechar a porta, descansar um pouco os olhos e pousar este livro densíssimo que ameaçava nunca acabar.

DO NADA




Do nada, surgiu-me a ideia que não era feliz. Uma folha em branco que de repente aparece manchada. Uma nódoa de escuridão. Uma palavra desenhada ao contrário, por uma mão trémula. Uma palavra como a clarividência da morte anunciando que todo o tempo perdido é tempo a menos na perseguição da felicidade.
Do nada, apercebi-me que a grande angústia que me encharca os olhos e me despeja o coração é não ter feito ainda nada para ser feliz. Ter deixado passar a oportunidade de ir ter contigo, no meio da multidão inerte dos outros, e dizer-te, cara a cara, que és quem pode parar o tempo e devolver a eternidade aos sonhos.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

INSTANTE PERPÉTUO




O que vejo em ti é uma pose antiga que se fotografou no meu coração. Podia dizer a mesma coisa mostrando a única fotografia que guardo de ti. Estás de pé como uma redoma de luz contra o inverno. Por trás um relógio altíssimo a adivinhar o fim do tempo e ainda mais atrás o rio escoando. Nesse instante era para mim que olhavas e só a mim me davas atenção. Eu era um quadro antigo e os teus olhos o giz que desenhava uma promessa tão frágil. As coisas eram simples e tínhamos coragem para transgredirmos quase todas as regras. Talvez por causa disso os deuses puniram-nos a ousadia e aquilo que podia ter sido um filme foi apenas um fotograma, nem sequer um instante. Uma pose agora. Que eu altero conforme a música que toca e que, dada a distância, já não sei se é honesto ter-te deslocado da rua para um divã.

JÁ NÃO TARDA MUITO




Não tarda muito e vou morrer sem ter desfeito o sal de todas as mágoas. Antes de adormecer ou mesmo no instante em que adormeço sei que me faltou qualquer coisa. Uma música batendo com força no mecanismo febril do meu cansaço. Uma música triste, pequenina, azeda como um doce passado. Por isso  sinto que passo a noite a encharcar os meus lençóis com um choro convulso que não acorda ninguém. Um choro transparente que me escorre pelo corpo como suor brando. Não era para acordar ninguém que estas coisas sofrem-se sozinhas. Como um luto inseminado artificialmente. Varetas de lume exausto que entram pelos meus olhos adentro.
Já não tarda muito e morri. Não dancei o que tinha a dançar porque nunca soube fazê-lo à tua frente. Tu sabias dançar. Notava-se pelas tuas mãos soltando e velando o vestido imóvel. Tenho pena de o tempo se estar a acabar. Acabou.